No artigo passado, fazendo-me eco do que, com constância e repetição, enche os nossos “media” nos últimos tempos, aqui se abordou o problema da corrupção, que parece inundar este país onde vivemos.
Sem qualquer regozijo com o que a seguir acrescentamos, não é uma gangrena que apenas medre em Portugal, ou naqueles países que os nossos responsáveis políticos e os nossos emigrantes, ao longo dos últimos seis séculos, ajudaram a formar, a crescer e a autonomizar-se. Quando proferimos, por exemplo, os nomes de Angola ou do Brasil, logo sentimos a impressão de que esse fenómeno, triste e espinhoso, faz parte do seu dia a dia, porventura em escala muito superior ao que grassa por aqui.
A corrupção é, infelizmente, uma chaga universal, que acompanha o homem e os seus sistemas políticos, do mundo do trabalho e de todas as dimensões sociais. Não que seja uma doença intratável, ou que, pelas suas dimensões e consequências, não deva ser combatida com o maior rigor, na medida em que afecta e denigre todos os horizontes de justiça e de boa convivência que deve presidir em qualquer sociedade.
É, com certeza, árduo e aparentemente algo desanimador, o combate que todo o cidadão e toda a autoridade constituída necessitam de travar para enfrentar as múltiplas maneiras de que a corrupção se serve para instalar os seus recantos, os seus paraísos fáceis e os seus tabus mudos e intocáveis. É uma luta dura e difícil, embora absolutamente necessária e inadiável. Fechar os olhos significa tornar-se cúmplice das poucas-vergonhas monumentais dos seus agentes.
Quando estes se instalam e não são incomodados, requerem para si uma isenção de punições adequada à sua actuação, que navega sorrateiramente ao largo das vias honestas e respeitadoras das leis a que todos os cidadãos se devem submeter. Vivem numa espécie de mundo à parte, escuro e camuflado, exigindo que, nos seus casos concretos, possam conscientemente, embora à socapa, fazer aquilo que as determinações legais em vigor não permitem e não sejam sancionados por tais procedimentos.
Tudo isto aguça e cativa um jornalismo de escândalo e de busca do sensacional de qualquer tipo. Ele próprio é capaz de transformar-se numa actividade algo descontrolada, em que se procura o sucesso com revelações que podem não ser nem objectivas nem verdadeiras. Basta um sinal provável ou uma chamazita de suposto subterrâneo desconhecido para suscitar um clamor cheio de títulos que, espremidos, não dão sumo convincente, nem sérios e robustos conteúdos. Sabem a pouco, ou a nada, e, por vezes, tornam-se ostensivamente injustos e insultuosos.
O cidadão médio vive, por isso, num ambiente cheio de interrogações e de novidades que não primam sempre pela concreção e pela veracidade. O seu sentido crítico e de senso comum devem avisá-lo de que é muito necessário ser prudente na aceitação do que anda no ar. Com estas observações não se pretende pôr de parte tudo o que se ouve, lê ou vê. Mas que se procure separar o trigo do joio, para nos servirmos de palavreais do Evangelho. E por falarmos neste livro sagrado dos cristãos recorde-se que o seu principal interlocutor, Jesus Cristo, nos convidou a pedir com veemência o bem de que todos precisamos. “Pedi e recebereis”, exclamava.
Por isso, um cristão deve saber, rezando, solicitar de Deus, que é nosso Pai, a paz entre os homens, o respeito que todos devem ter pelo seu semelhante e o amor pela verdade. Uma oração nestes termos é muito mais valiosa e produtiva do que uma meia hora de má-língua sobre aquilo de que não temos a certeza, ou mesmo que supera, pelo menos de momento, as nossas capacidades de conhecer com critério correcto e soubemos através de uma notícia surpreendente e chamativa.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
A corrupção e os nossos juízos de valor
DM
11 fevereiro 2018