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A consciência perante a liberdade e a ciência

A consciência é uma qualidade intrínseca da mente que abrange várias qualificações, incluindo a capacidade de perceber a relação entre o homem e o ambiente. Nesta aceção, a consciência é a capacidade que permite ao homem reconhecer a sua presença no mundo. Assim, se explica também a sua relação com os vários domínios do saber.

A ciência nunca existiria se a consciência não desse testemunho dos fenómenos da natureza. A consciência que testemunha a fatalidade das sensações também afiança a liberdade das nossas decisões. Se nada valesse o seu testemunho, do mesmo modo nada valeriam as leis da matéria.

Há circunstâncias, mais ou menos significativas, em que sentimos, com evidência, as nossas escolhas, ao fazermos aquilo por que optamos ou fazer outra coisa diferente.

Nenhuma ciência ou filosofia poderá triunfar sobre esta consciência que exige, ao mesmo tempo, a existência da matéria e da liberdade. No aspeto moral, ela alerta principalmente para a conformidade ou não dos nossos pensamentos e das nossas ações em relação com os nossos sistemas de valores.

Ao manifestar-se, mesmo aos olhos menos atentos, a consciência mergulha até no mais misterioso dos fenómenos e zomba do orgulho dos pseudossábios, dos pseudofilósofos e dos pseudopolíticos que tentam vingar-se com as suas falíveis objeções e as suas inferências desviantes da natureza e da dignidade humanas. Até aqueles que negam a consciência, no seu íntimo, acreditam nela e, por vezes, também a receiam.

Negam-na quando têm a pena na mão; mas creem nela todo o resto do tempo. Eles espalham à sua volta ordens e conselhos, de acordo com a sua ideologia ou discutem os temas sempre no pressuposto de defesa dos interesses do próprio ideário.

Tudo seria completamente ilógico, se os cientistas estivessem convencidos de que no mundo só existiria o determinismo e de que tudo se reduziria a rangidos de engrenagens e vaivéns de êmbolos ou das ferramentas mais sofisticadas da tecnologia contemporânea.

Quanto à liberdade, a ciência também nada sabe e nada tem a dizer sobre ela, mas não a pode negar. Mas a verdadeira filosofia demonstra-a; a evidência atesta-a; a humanidade, no seu quotidiano, usa-a e, muitas vezes, abusa dela em seu próprio detrimento.

A liberdade é a rainha que, de uma maneira ou de outra, governa tudo: ora como déspota caprichosa ou como libertina destruidora, ora como soberana, sábia e racional, aconselhando o respeito pelas leis que contribuam para o desenvolvimento do bem comum. Quem tem e guarda a chave do destino do homem é a liberdade humana.

A maior e mais nobre empresa de um espírito distinto e de um coração generoso é a possibilidade de poder fazer-se e refazer-se no seu dia a dia com coisas benéficas para o ser humano na sua relação com o meio que o rodeia em perfeita harmonia. É como ser livre que o homem se torna num ser responsável pela sua própria conduta e adquire uma dignidade própria: ser pessoa moral.

Por pessoa entenda-se, pois, não o indivíduo no sentido meramente biológico, mas o ser racional, autónomo e criativo, que se realiza na livre disposição de si próprio, consciente dos seus direitos e deveres na sociedade e capaz de se propor projetos e ideias a concretizar voluntariamente.

A liberdade é um dado imediato da consciência, exigida pela nossa constituição biopsíquica; é ainda o fundamento de toda a moralidade. A ideia, o sentimento e o ato são apenas momentos diversos de um só e mesmo fenómeno, concreto e profundo que forma a realidade psíquica.


Autor: Artur Gonçalves Fernandes
DM

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22 fevereiro 2018