A barragem do Azibo, em termos fluviais, de rega e de lazer é considerada uma das maiores obras de Portugal do seu género. Feita nos anos oitenta pela então grande empresa bracarense Azevedo Campos que, entre muitas grandes obras, construiu o Estádio Primeiro de Maio ou o Hotel Turismo, hoje Mercure, a barragem ostentou o título da maior barragem da Europa em terra batida e ainda hoje é uma das maiores do mundo.
Um dos motivos que me leva sentimentalmente a essa obra é que ela, desde o principio, meio e fim, foi toda dirigida pelo meu pai, de nome Telmo Barbosa e engenheiro civil de profissão.
Nas férias grandes gostava de passar longos períodos com o meu pai e acompanhava-o muitas vezes à obra da barragem, situada no concelho de Macedo de Cavaleiros, mesmo perto da aldeia de Vale da Porca, terra de Roberto Leal. Esse tempo todo com o meu pai foi verdadeiramente estruturante para o desenvolvimento minha personalidade e dos meus valores, em relação aos quais me procurarei guiar até ao ultimo dia da minha vida. Foi aí também que percebi que não tinha a mínima vocação para engenheiro civil.
Vale da Porca, naquela época, era daquelas aldeias quase no meio do nada, com ruas cheias de terra e pó, mas de gente muito hospitaleira, onde se viam deitados ao sol cães gigantes da então desconhecida raça Cão de Gado Transmontano que cada vez conquista mais adeptos em Portugal e no estrangeiro. Roberto Leal durante muitos anos fazia questão no mês de Agosto de oferecer um espetáculos às suas gentes e um dia o meu pai apareceu em casa com um disco autografado por ele.
Em certa altura, regressava com o meu pai a Braga, num percurso por estradas sinuosas de quase 5 horas, no seu Peugeot 404, quando ele me disse mais ou menos isto: “Olha Quim, resolvi aproveitar a albufeira da barragem para fazer umas praias que constituirão um polo de atração para muita gente desta região. As praias de mar são muito longe e demoram muito tempo a chegar. Esta obra não está prevista no projeto e há muita gente que não a quer. Mas vou convencer o governo, as autoridades locais e vou fazê-la mesmo”.
E, realmente, é um enorme motivo de orgulho para a nossa família que essa obra, feita quando mal se ouvia falar de praias fluviais, foi considerada por escolha dos portugueses, passado 25 anos da morte de meu pai, como sendo as melhores praias fluviais de Portugal. Ainda hoje, com os melhoramentos efetuados, são praias de referência e que ganham imensos prémios.
Quem conhece o meu pai, sabe bem da sua determinação e vontade férrea para conseguir um objetivo destes. Mas há mais histórias construção da barragem, umas curiosas e outras trágicas.
Um dia a obra foi visitada por dois secretários de estado, lisboetas e todos aprumadinhos, do então governo da Eng.ª Lurdes Pintassilgo. A empresa Azevedo Campos tinha um avião onde eram transportados os trabalhadores e o pessoal dirigente da empresa. À saída o meu pai, que não descuidava um milímetro a segurança aérea, ofereceu-lhes o avião para os levar a uma conexão a Lisboa, na companhia dos trabalhadores. No entanto eles negaram o convite, argumentando sarcasticamente que nunca viajariam num avião daqueles dado que tinham família, filhos para cuidar e temor pela vida.
O meu pai, de ligação umbilical à sua equipa, considerou praticamente um insulto e respondeu-lhes que se os trabalhadores da barragem e ele próprio, que também tinham mulher e filhos, viajavam no avião, os dois governantes poderiam fazer o mesmo. Foi tal o raspanete que foi vê-los a entrar no avião num ápice, vermelhos de vergonha – ou de raiva – pela descompostura dada.
A construção da albufeira exigia muita extração da areia, o que era feito por várias máquinas gigantes com pneus de diâmetro superior a dois metros. Um dos condutores, pai de um filho de seis meses, contrariando ordens rigorosas do meu pai por questões de segurança, saiu de uma máquina para urinar e foi atropelado por um colega que lhe passou duas vezes por cima e teve morte imediata.
O meu pai quis deslocar-se pessoalmente a casa da esposa para lhe comunicar a tragédia. Nessa noite, no nosso quarto, vi o meu pai destroçado.
Anos depois o Eng.º Júlio Barreios Martins, professor jubilado da Universidade do Minho contou-me, divertido, num almoço que em certo dia o meu pai apareceu-lhe na universidade, sem se conhecerem, muito preocupado com um inesperado problema de deficiente impermeabilização dos solos. Quase no imediato foram os dois à barragem e solucionarem o problema.
Há muitas mais histórias sobre o Azibo e a construção da sua barragem. Qualquer dia contarei mais algumas.
Autor: Joaquim Barbosa