É desalentador, mas era (mais que) previsível. O mal, além de ser mau (perdoe-se o pleonasmo), está a tornar-se cada vez mais banal.
E – o que é pior –, à força da banalidade, muitos serão os que já nem sequer advertem a sua maldade. Até a entronizam nos padrões da normalidade.
Se nos aparece como habitual – assim depreenderão não poucos –, é porque não deve ser mal.
Daí que a própria paz – como reparou Hannah Arendt, que vulgarizou a locução «banalidade do mal» – seja vista como «a continuação da guerra por outros meios».
O desenvolvimento tecnológico, desconectado dos imperativos éticos, fornece aos instrumentos de violência um potencial de destruição difícil de imaginar.
Acresce que, num cenário destes e reescrevendo Harvey Wheeler, mesmo que alguém ganhe, todos perdem.
Presentemente, estamos numa espiral cujos limites são praticamente impossíveis de conceber e de suster.
A «banalidade do mal» já chegou também ao digital. O instrumento gerado para aproximar as pessoas está a abalar, cada vez mais, a confiança entre as pessoas.
A multiplicação de «ciberataques» configura uma espécie de «terrorismo digital», capaz de imobilizar instituições e de ameaçar paralisar um país.
Ainda recentemente, vimos como, em Portugal, ficaram por fazer chamadas de telemóvel. Ou como hospitais e centros de saúde foram impedidos de avisar doentes para consultas e exames.
Há especialistas que não hesitam em qualificar estas acções como «actos de guerra» ou, mais propriamente, como actos de «ciberguerra».
O padrão recorrente parece ser a eliminação de dados, afectando a informação e os serviços.
Só em 2021, os «ciberataques» acarretaram, em todo o mundo, um prejuízo que ultrapassou os cinco mil milhões de dólares.
Prevendo-se que estes números possam crescer 15% todos os anos, em 2025 os custos devem superar os oito mil milhões de dólares.
É claro que os níveis da «cibersegurança» também aumentarão, mas neste «jogo» (que tem pouco de lúdico) é fácil presumir quem leva a dianteira.
Os que delineiam ataques estarão certamente a ponderar formas de contornar os esforços de defesa.
Acontece que a conflitualidade digital é mais um cenário onde se desenrola toda a conflitualidade. Ela emerge do coração do homem.
Os intervenientes, ao contrário da violência convencional, permanecem invisíveis e, muitas vezes, incógnitos. Mas o seu interior segue um arquétipo que o Evangelho denunciou há séculos.
É, com efeito, do coração do homem – alerta o Mestre Jesus – que brotam «os maus pensamentos, as imoralidades, os furtos, os homicídios, os adultérios,as ambições desmedidas, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a difamação, a arrogância e a insensatez» (Mc 7, 21-22).
É importante produzir legislação e incrementar a protecção. Mas, se não convertermos o coração, o mal continuará banal. Aqui e no universo digital!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira