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A autocracia mediática

Uma boa parte da minha vida, nos últimos anos, tem sido passada a ler, ler muito, o que não significa, em muitos casos, melhor e ou mais conhecimento. Há uma dúvida permanente, quase angustiante, que obriga a distinguir, cada vez com mais precisão, o que é verdade e que verdade? Dada a profusão nefasta de alegada informação, sem controlo nem consequências, ao cidadão resta desconfiar e desconfiar muito sobre a permanente tentação de alguns em manipular a opinião pública, tornando-a consumidora de falsa informação e ou de uma verdade alternativa que se vai articulando com as desilusões sociais e económicas, elas próprias, indutoras de uma conduta cada vez mais emocional e menos racional. Esta tendência para o comportamento suicida, em torno da perceção de uma realidade nefasta para a Democracia e para as amplas liberdades de que usufruímos, está-nos a conduzir, de forma perigosa e irreversível para o universo instantâneo do consumo “à La Carte”. A primeira ilação desta massificação enchouriçada da Informação, é que a sua fugacidade é consequência da Liberdade de Expressão e de uma benevolência excessiva, que não limita nem pune quem se dedica diariamente a lançar uma autêntica catarse de sentimentos contraditórios. É neste contexto de alienação e vulnerabilidade que nos encontramos como coletivo, o que não deixa de ser uma lição para as Democracias europeias, agora que, finalmente, em Bruxelas, se começam a desenhar medidas punitivas e esclarecedoras sobre os inimigos da paz. Chegamos aqui, porque decidimos que a imperfeição de um sistema democrático é melhor que nada; pior ainda, olhamos para esta extorsão do rigor e da verdade como contraponto aceitável à sua ausência o que na verdade, significa uma cedência à autocracia mediática. O trabalho de investigação de Tanya Lokot, a partir da Escola de Comunicação, na Dublin City University, a que deu o nome de “Mediatized” (mediatizados em português), em sete países, incluindo Portugal, é, por isso, um enorme contributo para perceber o papel da comunicação social neste desafio do século. A investigadora tem razão quando assinala a omnipresença dos órgãos de comunicação na vida pessoal, laboral, social e familiar e como é importante o seu desempenho para a perceção do que as pessoas pensam sobre a União Europeia e o projeto europeu. Lokot está a monitorizar a avaliar a cobertura mediática em torno da Democracia europeia, para perceber como se forma a crença sobre a EU e toca numa das questões mais prementes: “como é que as pessoas se tornam europeizadas”. O que significa ser mais europeu ou menos europeu? - A esta questão, defendi num recente debate, promovido pelo Europe Direct, que a comissão europeia tem de responder com a criação de bases para uma educação que coloque a Identidade europeia como objetivo fulcral das suas políticas. Uma das melhores formas de lá chegar é a gestão de proximidade ao mesmo tempo que deve ser definida uma política punitiva da manipulação do conhecimento e da informação. Temos pouco tempo para impedir que esta tendência se torne irreversível com todas as consequências negativas que daí advém. Não é tempo para tibiezas, nem falsas partidas. A Democracia precisa de ser protegida diariamente, não pode depender de voluntarismos quase arcaicos, baseados na perceção de que a Lei e as instituições democráticas são suficientes para nos defender. A própria comunicação social tem de parar de querer transformar os factos numa redoma da qual só sai, o que ela pensa que vende, nem que para isso, se sujeite, a contar meias-verdades e a despoletar sentimentos contraditórios, alegadamente baseados numa moral superior de que se afirma portadora. Este anacronismo mediático tem sido causador da glorificada verdade alternativa. Diariamente, somos confrontados pela incerteza do que é verdade ou não e não há melhor chão para os acólitos da tempestade mediática, que cidadãos disponíveis para optarem pela verdade que lhes convém. Seremos capazes de investir na defesa dos nossos valores coletivos? – O caminho não é fácil e é cada vez estreito. No que me diz respeito, ficar de braços cruzados é a única coisa que não pretendo fazer.    
Autor: Paulo Sousa
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9 outubro 2022