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A alameda

Chegou o tempo das podas. Nenhum lavrador dos meus tempos de aldeão permitia que o cuco fizesse ninho na ramagem das suas árvores. O mesmo se passava com as videiras: que nenhum rebento de videira chorasse ao ser podado. Este intróito serve para dizer o seguinte: a minha rua desemboca numa alameda; esta alameda é uma excentricidade na cidade. Uma vez que posso gozar de um sossego completo, quer de dia quer e noite, vivo como alguém que se encontra com a natureza e gosta de apreciá-la como uma dádiva de vida. A dita alameda tem duas caraterísticas distintas: numa das parte é ladeada por árvores enormes que deitam aos céus os seus dedos gigantes quando despidas de folhagem, ou fazem túnel de verdura quando as frondes se entrelaçam num amplexo inexplicável; do outro lado bordejam-na árvores de cabelo cortado amiúde, ajeitadinhas e penteadas como meninas de colégio. As outras, as grandes, as selvagens, tapam de cima abaixo os prédios escondendo-os do sol com uma ramagem abundante; são sem-abrigos que há muito não cortam a trunfa. Confesso, eu gosto deste lado selvagem, rebelde diria mesmo, porque faz as delícias da passarada que ali se abriga e se alimentam das migalhas das crianças da centro escolar. Estas árvores que há muito não recebem os préstimos do “cabeleireiro municipal” evocam-me a Cidade e a Serra de Eça de Queirós. Neste contexto estou metade na serra e metade na cidade, mas sinto-me mais Zé Fernandes do que Jacinto. Quem disto desconfia, já perguntou se as árvores educadas têm padrinho na câmara! Apesar de adorar a rebeldia das árvores por podar, é preciso colocá-las, ou apresentáveis, ou transferi-las para outro lugar, onde a largueza justifique a sua amplidão. Como na educação é preciso podar os instintos selvagens que são a génese do ser humano para que a sociedade os admita, também estas árvores, ainda que por analogia, necessitam de ser podadas para poderem ser árvores de jardim ou de pequena alameda; a beleza desta alameda não se pode afirmar por magnífica se, num dos lados tem o cabelo e barba cortados, e do outro com um e outra por fazer. Se as não podem mudar, ao menos podem-nas, arredondem-nas; pela estética ou volumetria façam-nas semelhantes às que estão do outro lado oposto da alameda; mas não lhe deixem os tocos à mostra como mãos amputadas de dedos. Na Avenida da Liberdade, começou a poda e faz-me impressão ver tantos cotos de mãos. Será que as árvores tiveram uma infeção que, para as salvar, tivessem de ser amputadas? Disto não sei. Venham domesticar as minhas árvores selvagens mas pensem que existe diferenças entre a domesticação e a castração da entidade. Sei que nisto reina uma sabedoria: o saber de saber podar. A poetisa Rosalía de Castro não andou por aqui, mas está aqui bem perto da rua de seu nome; ela que cantou os verdes campos galegos, não desdenharia cantar esta dicotomia entre árvores gigantes que abrem os seu braços em amplexos de afetos sinceros e árvores educadas de sussurros cochichados que vivem na mesma alameda. Cochichos de ironia para com as desprezadas? Cochichos de comiseração? São diálogos tão íntimos que não se ouvem senão nos silêncios da imaginação de quem em tudo vê e escuta o fervilhar da vida. Venham podar as árvores para lhes restituírem o direito “democrático” de poderem ser educadas como as irmãs que vivem na mesma alameda. Mas, sinceramente, tenho pena que tenham de as cortar. Tenho por elas os mesmos sentimentos do tio Vicente, o herbanário da Morgadinha, quando viu cair, uma a uma, as árvores do seu pequeno quintal: “parece-me que estou a sentir aquele estalar de fibras”.


Autor: Paulo Fafe
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14 fevereiro 2022