Lá se realizaram mais umas eleições, desta vez autárquicas, com a abstenção do costume – cerca de 50% dos eleitores inscritos, mais arroba, menos quintal.
É estranho que – num país onde todo o cidadão tem opiniões políticas, do analfabeto ao catedrático – os «opiniosos» desertem exactamente nos momentos em que são chamados a dar o seu contributo opinativo para os destinos da comunidade. Quando a sua opinião poderia ter algum efeito prático, o «opinioso» sonega-a, fica em casa, vai à praia, ao campo (quem sabe?) dá um salto até «lá fora».
Falando curto e duro, isto denuncia, ao fim de quase cinquenta anos de liberdade democrática, metade de um povo que não soube, nem sabe usufruí-la porque continua politicamente inculto e civicamente atrasado.
Para além dessas faltas de cultura e de civismo, duas outras, entre outras, ajudarão a explicar o fenómeno: uma desconfiança generalizada perante a classe política, por um lado; e, por outro, o desinteresse e a hipocrisia dessa mesma classe face ao problema.
Quanto à desconfiança, julgo que ela está a ser levada longe de mais. Para começar, nem todos os políticos são corruptos, ou carreiristas, ou oportunistas, ou videirinhos, ou incompetentes. Há de tudo isso, separado ou junto, na nossa classe política. Mas também os há (poucos, é certo) honestos, bem intencionados e… competentes. Depois, e principalmente, esses desconfiados abstencionistas que entendem que «são todos iguais e, por isso, não vale a pena votar», deveriam expressar a sua desconfiança e o seu descontentamento através do voto em branco. Tal voto significa uma censura expressa às listas apresentadas. Ao contrário da abstenção, não significa desinteresse.
Mas isto só é claro para quem tem um cibo de cultura política e um mínimo de civismo. E, disso, há pouco entre nós.
Quanto à classe política: toda ela, à uma (é comovedor este unanimismo) lamenta, sempre e pesarosamente, a larga abstenção. Mas nada faz para a combater.
Muitas têm sido as sugestões: desde o voto antecipado (que funcionou muito bem nas últimas presidenciais mas já foi residual nas recentes autárquicas), ao voto por correspondência; do voto electrónico ao voto em dois dias; do voto aos feriados ao voto à semana – tudo isto e muito mais tem sido proposto e sugerido para simplificar ao cidadão a obrigação de votar – diminuindo, deste modo, a multidão de abstencionistas.
Só que os políticos dos variadíssimos partidos, grandes ou pequenos, nunca nada fizeram nem fazem para estudar e viabilizar alguma dessas (ou de outras) sugestões.
Daí, a fechar, duas conclusões:
– No Poder ou na oposição não estão nada interessados em combater o abstencionismo.
– Quando o lamentam estão a ser profundamente hipócritas.
Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
A abstenção
DM
2 outubro 2021