Durante muitos anos, a Europa deixou de se apresentar como a casa dos moderados e perdeu-se em ideias e políticas importadas de toda a parte do mundo. O centro criador de grande parte dos conceitos que hoje usamos como essenciais para descrever o Ocidente – democracia, liberdade, igualdade, fraternidade, justiça – foi substituído por lutas de discussões ideológicas que muitas vezes apenas afirmaram uma visão única do mundo. Essas lutas encontram os seus polos na extrema-esquerda e na extrema-direita, sendo muitas vezes esta última a que colhe o voto popular. Em vez de olharmos para os dados e percebermos o caminho que estávamos a fazer: estagnação económica, números baixíssimos de natalidade, falta de produtividade, números preocupantes na construção de novas habitações e tantos sintomas que anunciavam uma doença grave, ficámos parados a discutir que termos eram admissíveis na novilíngua que muitos propunham. Se a liberdade implica submetermos as ideias da Europa a outras. Se é fundamental para um país que os seus cidadãos sejam puros-sangues. Se deveríamos derrubar estátuas de responsáveis pelo imperialismo europeu e se, no continente da liberdade, deveríamos apagar partes da história, procurando, desta forma, deixar de entender o que fomos e o que somos. Esta luta entre extremos levou todos os moderados para o conforto do seu sofá, com um LCD de última geração, ou então considerámos que, enquanto suportarmos voos da Ryanair entre cidades europeias, a questão em nada põe em causa o nosso modo de vida.
No entanto, esquecemo-nos do essencial que fez da União Europeia um bastião num mundo de tubarões. As pessoas quiseram que o Muro de Berlim caísse não porque na ex-União Soviética todos queriam ser ricos, mas porque sabiam que, na Europa, todos conseguiriam um limiar mínimo que lhes permitiria, num dia de sol, tomar um café na esplanada e, num dia de chuva, dormir descansados na sua casa, sem terem de se preocupar com a decisão de pagar a renda ou poder comprar o essencial no supermercado. A Europa que teve o seu apogeu nos anos 80 e 90 correspondia a isto mesmo: uma classe média feliz e economicamente segura. Foi a partir deste pressuposto que se construiu a liberdade e não, ao contrário do que muitos pensam, com as discussões falaciosas do wokismo e do populismo de direita bacoco. Na Europa, o conceito de liberdade existe há séculos; a sua aplicação abstrata e concreta aconteceu há duas décadas.
Hoje, aqueles que ainda acreditam nesta Europa não sabem como se posicionar neste mundo estranho, em que temos de tomar uma posição pela pilhagem ou pela bastonada. É sempre muito difícil aceitar que, para se manifestar, existam excessos, mas nunca poderá ser difícil entender que cabe à polícia não cometer esses excessos. Hoje, a Europa vive sem saber o que fazer e assiste com muita estupefação a tudo aquilo que está a acontecer. Se queremos voltar a ser livres, então temos de sair do sofá e lutar pela visão do mundo que muitos moderados ainda têm para oferecer. É altura de deixar as nostalgias do absoluto e tratar os extremos como sempre se tratam em democracia: têm o direito a existir, mas faremos tudo para os combater. Numa Europa que arde, só existirá salvação no equilíbrio, e a pergunta é: será que os equilibrados estão dispostos a lutar?