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Já não vivemos no mesmo País

Vivemos no mesmo território, obedecemos às mesmas leis, elegemos os mesmos representantes e, no entanto, começa a ser legítimo perguntar se continuamos a viver no mesmo país. Não porque Portugal se tenha dividido geograficamente, mas porque se multiplicam as distâncias entre as experiências de vida, as perceções da realidade e até os significados que atribuímos às mesmas palavras. O que para uns é uma dificuldade passageira, para outros é uma impossibilidade permanente. O que uns consideram uma exigência razoável, outros classificam como privilégio. E aquilo que deveria suscitar uma preocupação comum transforma-se, demasiadas vezes, num problema que pertence apenas a quem o sofre. A diversidade não é o problema. Uma democracia vive da diferença, do confronto de ideias e da possibilidade de discordar. O problema começa quando deixamos de procurar compreender as razões da discordância. Quando ouvimos para responder, não para perceber. Quando substituímos a experiência do outro por uma caricatura conveniente. Nesse momento, a discussão pública deixa de ser um encontro entre perspetivas e converte-se numa sucessão de monólogos. Pensemos na habitação. Para quem comprou casa há décadas, o esforço exigido a quem hoje procura autonomia pode parecer exagerado ou mal explicado. Para quem enfrenta rendas incompatíveis com o salário, os conselhos sobre poupança e prudência soam a desconhecimento da realidade. Ambos falam de habitação, mas não partem do mesmo mundo. O conflito não nasce apenas da diferença de interesses. Cresce quando cada um deixa de admitir que a experiência do outro possa ser verdadeira. O mesmo acontece entre gerações, entre quem depende diariamente de serviços públicos e quem dispõe de alternativas, entre quem encontra oportunidades na transformação tecnológica e quem nela reconhece uma ameaça ao seu trabalho. As desigualdades materiais são reais, mas há uma outra desigualdade, menos visível: a desigualdade na possibilidade de sermos escutados e compreendidos. As redes digitais prometiam aproximar-nos. Deram voz a muitos que antes não a tinham, o que constitui uma conquista. Mas também favoreceram espaços onde a concordância é recompensada e a dúvida recebida como fraqueza. Não precisamos de atribuir às plataformas todos os males da convivência democrática para reconhecer que a velocidade da reação raramente ajuda à compreensão. Um comentário substitui uma conversa; uma etiqueta dispensa um argumento; uma indignação instantânea ocupa o lugar de uma reflexão. Há aqui uma consequência particularmente inquietante. Quando deixamos de compreender a vida dos outros, começamos a aceitar com maior facilidade situações que nunca aceitaríamos para nós próprios. A dificuldade de um jovem em construir uma vida independente, a solidão de um idoso ou a insegurança de uma família deixam de interpelar a comunidade e passam a ser descritas como casos particulares, escolhas individuais ou fatalidades inevitáveis. Não é preciso negar o sofrimento alheio. Basta considerá-lo suficientemente distante para que deixe de nos comprometer. Mas compreender não significa concordar, nem transformar todas as reivindicações em direitos automaticamente satisfeitos. Significa reconhecer que a experiência de quem vive uma realidade diferente contém informação que nos falta. Significa aceitar que os problemas coletivos não podem ser definidos apenas a partir do lugar confortável de quem os observa. E significa exigir da política mais do que a habilidade de reunir apoiantes contra adversários. Uma sociedade não se torna mais coesa por eliminar conflitos. Torna-se mais capaz quando dispõe de instituições, espaços públicos e hábitos de diálogo que permitem transformar conflitos em decisões reconhecíveis, mesmo por quem delas discorda. Essa capacidade não nasce de discursos sobre união nacional. Constrói-se na escola, nos bairros, nas organizações, na comunicação social e na forma como exercemos a cidadania. Talvez o nosso maior desencontro não esteja nas opiniões que nos separam, mas na facilidade com que deixámos de imaginar a vida de quem está do outro lado. Continuamos a falar do mesmo país. Falta saber se ainda estamos dispostos a compreendê-lo em conjunto.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

25 outubro 2026