O presente mito é difundido pelos partidários da corrente teológica cristã do “universalismo”, a qual defende a tese de que, ultimamente e fruto da própria natureza de Deus-Amor, não há um castigo eterno e todos os seres humanos serão salvos. Para ancorarem isto, os defensores do “universalismo” afirmam que, antes da Grande Igreja quase se ter tornado a vertente religiosa do Império Romano (no séc. IV), essa posição não só era aceite pela globalidade dos pensadores cristãos do século III, como também não foi condenada nessa centúria.
Pois bem, se é verdade que desconheço totalmente a existência de uma condenação dessa posição levada a cabo durante o séc. III (certamente porque a Igreja estava focada em outras problemáticas mais prementes), é igualmente verdade que, embora essa tese fosse assaz comum (em associação a uma conceção da “geena” como um fogo purificativo, medicinal e provisório – algo semelhante, pois, ao que posteriormente será denominado “purgatório” –), não era, contudo, universalmente defendida pelos teólogos cristãos.
Senão vejamos: na secção 10, 3 (de cerca do ano de 225) da enigmática obra intitulada “Contra todas as Heresias” (composta por diferentes autores que passaram a ser conhecidos pelo nome coletivo de “[Pseudo-]Hipólito de Roma”), lê-se: «os injustos padecerão um castigo sem fim num fogo inextinguível e indomável (…) [do qual] nem a morte os livrará, nem nenhum apelo de amigos que intercedam lhes servirá de nada».
Cerca de trinta anos depois, Cipriano de Cartago, no número 24 de “A Demetriano” (tratado escrito no ano de 252) afirma que, após a morte, «uma geena a arder eternamente consumirá os condenados num castigo de chamas vivas, não havendo qualquer fonte de onde os seus tormentos possam, em momento algum, ter um fim ou um alívio, [sendo que] a alma será mantida num sofrimento incessante».
Noutras circunstâncias, poderia ainda ter citado Tertuliano de Cartago (“Contra Marcião”, 4, 29), Vitorino de Petau (“Comentário ao ‘Livro do Apocalipse’”, 20, 10-15), Novaciano de Roma (“Acerca da Trindade”, 1) e Comodiano (“Instruções contra os deuses dos Gentios”, 26).
Tendo isto em apreço, diga-se, igualmente e em fidelidade a uma verdade da qual nunca devemos ter vergonha ou receio (e se não a assumirmos, estejamos certos de que tal nos será apontado), que diversos autores cristãos do Século III defenderam, efetivamente, uma ou outra forma de “universalismo” salvífico.
Entre estes e, mais uma vez sem ter a possibilidade de ser exaustivo, posso referir: Clemente de Alexandria (“Miscelâneas”, 7, 2); Orígenes de Alexandria (“Acerca dos Primeiros Princípios”, 3, 6); Pânfilo de Cesareia (“Apologia a Orígenes”, 8); Gregório Taumaturgo (“Panegírico a Orígenes”, 15); Bardesanes de Edessa (“O Livro das Leis dos Países”, 3); Metódio do Olimpo (“Acerca da Ressurreição”, 1, 4s); Teognosto de Alexandria (“Esboços”, 7); e, enfim, Piério de Alexandria (“Homilia sobre o ‘Livro do Profeta Oseias’”).
Como exemplo e remate, apresento a citação de Bardesanes de Edessa (datada de 220): «o desígnio amoroso de Deus é mais poderoso do que a vontade rebelde das criaturas (...) No fim, tudo será purificado e será restaurado à sua natureza original [na amizade com Deus]».