O presidente da Associação de Desenvolvimento Económico e Social (SEDES), Álvaro Beleza, defendeu recentemente a ideia de uma candidatura, da cidade de Lisboa, aos Jogos Olímpicos (e Paraolímpicos) de 2036. Referiu que “Portugal deve ter a coragem de pensar grande. De assumir ambições à altura das suas capacidades, da sua história e do lugar que quer ocupar no mundo. Lisboa deve estar no centro dessa ambição”, declarou Álvaro Beleza. Referiu ainda como “uma oportunidade única para pensar a cidade a longo prazo”.
À primeira vista a proposta até parece interessante e poderia ser discutida com seriedade, mas a questão que se coloca de imediato é: pode um país com as dificuldades económicas, financeiras e desportivas, como Portugal, assumir os riscos de organizar o maior acontecimento desportivo do mundo? Penso que não!
A ideia de que os Jogos modernizariam Lisboa, melhorariam as infraestruturas e projetariam o país é sedutora, mas irrealista. Esquece-se ou ignora-se, que o passado nos ensinou, que os custos com os investimentos ultrapassam quase sempre as previsões, e entre o investimento e o retorno há sempre défice e as dívidas ficam para os contribuintes suportarem durante décadas, comprometendo o futuro de um país. Outra questão que se coloca é se os proponentes têm conhecimento da carta olímpica, das competências e responsabilidades do Comité Olímpico de Portugal (COP) e o aval do governo em funções e que ultrapassa a sua legislatura?
Se consultarmos a história das olimpíadas pode se constatar os exemplos de vários países organizadores que ficaram com pesados encargos para pagar ao longo de vários anos.
Senão vejamos, Quebec (Canadá) 1976, levou trinta anos a pagar as dívidas, em grande parte através de um imposto especial criado sobre o tabaco, e só terminou o pagamento em 2006. Atenas (Grécia) 2004, deixou pesados encargos ao país, que pouco depois mergulharia numa profunda crise financeira. O Rio de Janeiro (Brasil) 2016, só conseguiu encerrar as contas no presente ano, uma década depois dos jogos realizados. Um estudo efetuado pela Universidade de Oxford, sobre as edições realizadas entre 1960 e 2016, concluiu que houve uma derrapagem média real de 156% nos custos das organizações.
E nem seria necessário estes exemplos, de países estrangeiros, basta verificar o que sucedeu no nosso país com a organização do Euro 2004, em futebol, para constatar o que sucedeu a alguns estádios (Algarve, Aveiro, Leiria e Braga) em que se tornaram pesados encargos para os municípios que os herdaram vindo a afetar as gerações futuras.
Para além disso como pode o nosso país, com tantas carências na saúde, na educação, no desporto, entre outros setores, entrar numa candidatura desta dimensão sem que se conheçam os estudos de viabilidade o modelo financeiro, garantias institucionais, disponibilidade de instalações e, fundamentalmente, uma estratégia de desenvolvimento do sistema desportivo português. Nesse sentido creio que melhor seria investir no desenvolvimento da prática da atividade física e desportiva das populações e melhorar/aumentar as instalações desportivas públicas tornando uma sociedade mais ativa e saudável!
Candidatura olímpica?
Luís Covas
16 outubro 2026