twitter

A fuga e os palanques

O homem, neste século, também continua a nascer… e vive a correr.

Corre-se e tantas vezes não se prevê a própria segurança. Corre-se e geralmente não se sabe por onde nem para onde.

O homem vai, vai, vai!… e só pára quando se apercebe do resultado da correria. Então, tanto pode regozijar-se, esquecendo até que Deus o ajudou no percurso, ou lamentar-se, dizendo que Deus não existe ou nada quer com Ele, para fugir a responsabilizadas ensinadas. 

O homem de hoje corre, pensa devagar e pouco, foge e por vezes cobardemente. E os cobardes morrem várias vezes antes da sua morte.

A maioria das pessoas e sobretudo os líderes do mundo vivem vidas angustiantes. Desconhecem o amor, a solidariedade e o serviço. Tantos, fazem da sua memória, das suas vidas e dos seus pensamentos, autênticos recipientes de lixo.

Diz-se ao homem, através das formas mais variadas, o que a vida lhe reserva e contém, e não encontra o essencial; o que a vida lhe exige e, pouco ou nada aceita; diz-se-lhe quais são os seus deveres e ele indica outros, ou declara não ser o responsável por nenhuns.

O homem sente no seu ego a existência de Deus, mas por quaisquer razões, segue mal ou esconde-O na gaveta das suas aflições. Quantos homens nem aos próprios filhos oferecem ou mostram Deus! Vivem a correr, vivem a fugir. São cavadores de “rotas cisternas”: conhecem mais facilmente o dinheiro, o prazer, a intriga e o ódio. 

Muitos homens são líderes na sociedade, na política e, outros, até regem os destinos das cidades e das nações. Mas atropelam a todos, roubando o pão dos pobres e, como quem usa carvão, ainda sujam as ideias dos justos ou indefesos.

“Tratam” de religião, falam e escrevem sobre ela como se nela vivessem ou conhecessem. São mercenários, que através de qualquer palanque de ocasião, falam de paz, de consolação ou de estropiados. 

Atiram bitaites em qualquer dia, hora ou data, dando a impressão que são justos, coerentes ou tolerantes. Mas para quem os conhece de ginjeira, sabe que não passam de pavões ou da xico-espertisse de ocasião. Mas serão estes actores de estrado, que unirão os grandes e os pequenos, os guerreiros e os profetas? 

Tais tagarelas, tudo deturpam e, aos vocacionados para Deus, apresentam-nos sempre em plano inclinado ou fazendo parolas insinuações, na tentativa de que a Verdade passe a ser a verdade que lhes convém, como tentavam os fariseus.

Por isso, a duplicidade no homem – principalmente aqueles que exercem o poder – é tão visível que, tantos, já não se surpreendem. Só os ingénuos ou os estáticos, não vêm que parecem ter duas almas, ou então, nenhuma.

E bem se sabe que há homens maus pelas acções que praticam. Os donos do capital selvagem, da guerra e da corrupção conhecem a sua malvadez. Outros são tão maus como aqueles: não aceitam nem conhecem amigos, censuram tudo que corra contra a sua (deles) corrente, invejam a verticalidade e a competência dos outros, apunhalam e quase exigem que se mate ou se encarcere quem os estorve. 

O mundo necessita de homens coerentes, sérios, fortes, leais e de acção. O homem inteligente – não o homem transigente, o de soluções acomodatícias, o que é sempre condescendente – jamais poderá pactuar que Deus seja novamente crucificado.

Por isso, os mais responsáveis, os homens de carácter, os sérios e os justos, têm de apresentar Deus na praça pública sem reservas, sem respeitos humanos e muito menos sem medos, dê para o que der!

Os cavadores de “rotas cisternas”, se, pela inveja e pelo rancor procuram sangue que apague a sua mentira, ódio ou frustrações, saibam que os que querem Deus, estão dispostos a lutar para que Ele vença e o homem se não perca nas verdades do Evangelho, as quais, se necessário, anunciadas serão “de cima dos telhados”, como recomendou que se fizesse, certo dia, S. João Paulo II.

Assim sendo, ninguém está dispensado de pensar, principalmente se se pensa sem regras e método. Logo, é essencial saber que o homem, o bem e o mal, dos três, tem sido o homem o mais frágil.


 

(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)


 

Artur Soares

Artur Soares

16 outubro 2026