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A Seleção, de quem?

Um capitão não abandona o grupo. Pode discordar, pode sentir que lhe faltaram à palavra, mas o lugar de um capitão é dentro do balneário, a defender a equipa e não a si próprio. Foi isso que falhou a Cristiano Ronaldo. Depois de um desentendimento com Selecionador. Já pediu desculpa. O gesto ficou, e o pedido pode ser um bom (re)começo. Há muito ruído à volta do episódio, e grande parte é lateral. Quem disse o quê ou quem aqueceu e não entrou importa menos do que a regra simples que ficou ferida: a equipa está acima de qualquer um, incluindo o melhor de todos. Um grupo só é forte quando cada membro sabe que ninguém é maior do que o conjunto.

Mas este caso diz mais do que parece. Para o jogador, está em causa a reputação global e a consciência do valor social e global que tem. Para o treinador, a reputação de vencedor e de comandante de um grupo orientado para ganhar. Para o presidente da Federação, uma questão de sustentabilidade, onde a componente económica pesa muito. Toda a gente sabe que a seleção vale, comercialmente, bastante mais com Ronaldo do que sem ele. Cada um defende, com razões próprias, aquilo que lhe é mais caro, e é compreensível que assim seja.

Sentimos também que, com o lote de jogadores que Portugal tem tido e com as outras opções que surgiram nos últimos quatro anos, poderíamos ter sido campeões europeus ou mundiais. E sentimos que o tempo de jogo dado a Ronaldo pode ter condicionado a equipa. Não é uma crítica ao jogador, que merece todo o respeito pela carreira que construiu, mas uma reflexão sobre o equilíbrio de um grupo que precisa de renovar sem hesitações. Tudo isto é também fruto de uma sociedade que construímos, e a maioria das pessoas parece estar satisfeita com ela. Uma sociedade mais global do que melhor, quase sempre manipulada e artificial, mas que ajuda a pagar os salários milionários de quem está no topo, o do próprio selecionador incluído. Não vale a pena fingir que é outra coisa, nem que o futebol vive à margem dela.

O efeito Ronaldo não é eterno, mas não sabemos, e é aqui que a Federação tem de ser mais exigente consigo própria. Ronaldo e a seleção tem ajudado a Federação a cumprir a sua missão, apoiando os clubes de base e as associações regionais, desenvolvendo o futebol feminino, o futsal e o futebol de praia, e promovendo as modalidades com bola no pé, como se fez há mais de uma década. É nestas áreas que se forma quem vai praticar, treinar e gostar de futebol nas próximas décadas. Restam duas hipóteses. Ou vamos para processos de reconciliação, com boa gestão e boa comunicação, para transformar a visibilidade de hoje em estrutura duradoura. Ou não aproveitamos, e ficaremos sem saber o futuro de quem vive estas modalidades quando o brilho se apagar. Quando isso acontecer, não será a seleção a pagar a fatura, serão os clubes, os treinadores, e o mais importante, os praticantes. 

Fernando Parente

Fernando Parente

9 outubro 2026