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Acordos e capitulações

Todos dizem querer acordos. Conduzem à paz, os governos invocam-nos, as instituições vivem deles, as seleções também. Mas, quando chega a hora de cumprir, descobre-se que muitas vezes ninguém entendeu o mesmo texto da mesma maneira – ou, pior ainda, que ninguém quis realmente explicá-lo.

Vivemos dias em que a palavra “acordo” regressou ao centro da atualidade. Fala-se dela nas negociações entre a Rússia, a Ucrânia e nas conversações entre os Estados Unidos e o Irão. E, numa escala menor, mas emocionalmente intensa para os portugueses, fala-se dela no caso Cristiano Ronaldo e na tensão criada na Seleção Nacional.

São mundos diferentes, naturalmente. Uma guerra não se compara a um balneário. A soberania de um povo não se mede pela titularidade de um jogador. Mas há um ponto comum: antes de discutir quem falhou, é preciso saber o que foi combinado.

No caso da Ucrânia, a palavra acordo é especialmente perigosa. Para uns, acordo significa paz. Para outros, pode significar rendição. Para outros ainda, pode ser apenas uma pausa tática até à próxima ofensiva. A grande dificuldade das negociações entre Moscovo, Kiev e Washington está precisamente aí: onde uns veem compromisso, outros veem capitulação. E quando se trata de território, segurança, fronteiras e vidas humanas, a diferença entre acordo e imposição é moralmente decisiva.

A paz não pode ser apenas o silêncio das armas se esse silêncio nascer da humilhação de um povo agredido. Mas também não pode ser recusada eternamente em nome de uma pureza estratégica que condene gerações à destruição. O verdadeiro drama da Ucrânia é esse: como procurar a paz sem premiar a agressão; como terminar a guerra sem transformar a vítima em vencida; como negociar sem aceitar que a força passe a ser fonte legítima de direito.

Com o Irão, o acordo parece muitas vezes uma soma de ambiguidades: sanções, petróleo, Estreito de Ormuz, segurança marítima, programa nuclear, garantias internacionais. Cada parte apresenta a sua versão, cada mediador sugere um caminho, cada declaração pública parece deixar espaço para nova disputa. Fala-se de entendimentos, memorandos, respostas oficiais, condições por cumprir. Mas o cidadão comum fica sem saber exatamente onde termina a diplomacia e onde começa o teatro político.

É por isso que a transparência é essencial. Um acordo secreto pode às vezes ser útil para iniciar negociações; dificilmente serve para consolidar confiança. Quando os povos não conhecem os termos essenciais do que foi negociado, ficam entregues à propaganda. Uns dirão que houve traição. Outros dirão que houve vitória. Outros ainda garantirão que ninguém cumpriu nada. Mas como aferir o incumprimento se o conteúdo do compromisso permanece escondido, incompleto ou convenientemente nebuloso?

Esta lógica também ajuda a olhar, com a devida distância, para o caso Cristiano Ronaldo. Portugal habituou-se a ver Ronaldo como mais do que um jogador. Foi capitão, símbolo, recorde, hino vivo de uma ambição nacional que muitas vezes encontrou no futebol aquilo que não encontrava noutras áreas: reconhecimento mundial. Por isso, qualquer tensão entre Ronaldo e a Seleção é vivida como assunto de Estado emocional.

Mas também aqui convém fazer a pergunta simples: que acordo existia? Foi prometido a Ronaldo determinado papel? Foi-lhe garantida uma utilização que depois não aconteceu? Ou houve apenas expectativas, conversas, leituras divergentes e ressentimentos acumulados? É impossível julgar com rigor sem conhecer os termos. E, no entanto, como quase sempre, o país julgou primeiro e perguntou depois.

Há quem veja no episódio uma ingratidão para com o maior jogador português de sempre. Há quem veja, pelo contrário, a necessidade de afirmar que nenhuma figura está acima da equipa. Ambas as leituras podem conter uma parte de verdade. Ronaldo merece respeito por tudo o que deu a Portugal. A Seleção, por sua vez, não pode viver prisioneira da biografia de nenhum jogador, por mais gloriosa que seja. A questão não é escolher entre memória e futuro; é perceber se houve palavra dada, palavra quebrada ou apenas a colisão inevitável entre uma lenda que ainda se sente útil e uma equipa que precisa de se reorganizar.

Sem essa resposta, discutimos sombras. E um país, uma equipa ou uma comunidade internacional que discute apenas sombras acaba sempre por confundir acordos com capitulações, autoridade com humilhação e silêncio com paz.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

8 outubro 2026