Por ocasião da comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental, há uma reflexão que se impõe. Nunca se falou tanto de saúde mental. Nos últimos anos, surgiram mais campanhas, mais informação, mais profissionais, mais conteúdos nas redes sociais, mais preocupação com o bem-estar. Mas… estamos realmente a sentir-nos melhor?
Nos dias que correm, e talvez precisamente fruto desta maior consciência sobre o tema, parece que ganhámos uma obrigação nova: a de estar bem. Hoje, não basta estudar, trabalhar, cumprir, produzir. De alguma maneira, parece que também temos o dever de dormir bem, comer bem, ir ao ginásio, gerir o stress, descansar, ter relações saudáveis, praticar o autocuidado. E tudo isto é válido. O problema começa quando cuidar da saúde mental passa também a ser mais uma coisa que não podemos falhar.
Quem anda cansado pergunta-se se descansa o suficiente. Quem tem ansiedade culpa-se por não a gerir melhor. Quem não consegue desligar acha que faz pouco por si. E o autocuidado vira meta de desempenho, uma espécie de "produtividade do bem-estar". Quantas vezes se ouve "Já fiz tudo o que me disseram e continuo assim”?
Passámos de uma época em que se dizia “Não fales disso” para uma época em que dizemos “Cuida de ti.” A mudança é enorme e é positiva. Mas será suficiente? Porque, na verdade, há sofrimento que nenhuma estratégia individual consegue, por si só, resolver. Não podemos, por exemplo, querer ensinar alguém a gerir melhor o stress e, simultaneamente, ignorar ambientes de trabalho tóxicos, precariedade, isolamento, pressão académica ou sobrecarga. Quem sofre num emprego precário ou numa equipa sem apoio não precisa só de aprender a respirar melhor. Precisa de horários que deixem descansar, de chefias que ouçam, de equipas que não deixem ninguém sozinho. Cuidar da saúde mental também é uma responsabilidade coletiva.
Então, o que significa realmente cuidar da saúde mental? Cuidar da saúde mental não é estar sempre bem. Tristeza, ansiedade, frustração e cansaço fazem parte da vida, e nem tudo precisa de ser corrigido de imediato. Às vezes, cuidar também é aceitar que há fases difíceis. E, outras vezes, pode ser precisamente reconhecer, mesmo a custo, que já não conseguimos lidar sozinhos e procurar ajuda.
Hoje, o fundamental talvez seja simplesmente conseguir dizer “Hoje não estou bem” sem imediatamente procurar uma explicação, sem transformar isso numa falha pessoal, sem sentir que estamos a fazer alguma coisa errada. Porque ter saúde mental não significa sentirmo-nos bem todos os dias. E porque procurar ajuda não é falhar no autocuidado. É, muitas vezes, a sua forma mais madura.
Lutámos muitos anos para que a saúde mental fosse levada a sério. Agora, convém não transformar cada desconforto numa doença, nem cada gesto de autocuidado numa obrigação. Cuidar da saúde mental não pode ser mais uma coisa que temos de fazer bem.