Neste mês de outubro, dedicado às missões, parece-me oportuno refletir sobre os tempos que vivemos. Creio que os cristãos não terão ficado indiferentes à viagem do Papa Leão XIV a França. Este país, hoje menos do que no passado, sempre se apresentou como uma espécie de barómetro da presença da religião na sociedade.
Muito se escreveu antes, durante e depois da visita. Qual é, afinal, o significado da laicidade num mundo marcado pelo indiferentismo?
O Papa Leão XIV não negligenciou esta questão. Logo no início da sua permanência em terras gaulesas, na residência do Palácio do Eliseu, não hesitou em abordar o assunto: «A dimensão religiosa, quando autêntica e bem cultivada, dá qualidade às relações interpessoais e ajuda muito a formar as pessoas para viverem em comunidade e na sociedade» (29-09-2025).
Antes de partir de Roma, o assunto já tinha invadido as agendas dos meios de comunicação social. O Papa explicitou esta laicidade sadia como um modo de vida assente no diálogo: «Ser homens e mulheres de diálogo significa permanecer firmemente arraigados no Evangelho e nos valores que vêm dele e, ao mesmo tempo, cultivar a abertura, a escuta e o envolvimento com aqueles que vêm de outras inspirações, colocando sempre no centro a pessoa humana, a sua dignidade e a sua contribuição relacional e comunitária».
Nota-se aqui a presença da carta Magnifica Humanidade, na qual o Papa afirma que a Igreja enfrenta um grande desafio: fazer com que a sociedade seja habitada por Deus, não permitindo que outros invistam na construção de uma nova Babel, marcada pela confusão e pelo egoísmo (M. H., n.º 1).
Na mesma ocasião, Emmanuel Macron, na sua residência oficial, não deixou de abordar o mesmo assunto. Sabia o que alguns tinham escrito e reconhecia uma mentalidade que ainda vigora: «O verdadeiro laicismo não consiste em excluir a religião da esfera pública». Recordou e sublinhou que, «quando a República decidiu, há pouco mais de 120 anos, a separação entre a Igreja e o Estado, deu forma a uma laicidade francesa que não é, de modo algum, a negação da religião». E acrescentou que o país assume o compromisso de permitir a todos a liberdade de «crer ou não crer, tanto na intimidade como na esfera pública».
Talvez seja ainda mais assertivo ao afirmar que a República Francesa já está a combater o «ressurgimento» de atos antirreligiosos «insuportáveis», que «atingem a comunidade cristã» e dos quais «as comunidades judaicas e muçulmanas também são vítimas».
Se outrora o catolicismo encarou o dever de evangelizar mundos desconhecidos, hoje terá de acolher o imperativo de colocar o Evangelho no coração da sociedade. A «mística do Evangelho» não pode diluir-se, e a Igreja tem de mostrar a sua validade sobretudo através do testemunho e de uma presença atuante nos meandros da sociedade hodierna. Numa sociedade plural, deve também afirmar o direito a existir no espaço público, crescendo no diálogo com os Estados e com todas as instituições religiosas.
No areópago dos tempos que correm, trata-se de uma prioridade pastoral que não pode ser relegada para o esquecimento, como se estivéssemos perante uma questão ultrapassada.
O Papa Francisco, perante a emergência de uma cultura indiferentista que, por vezes, se torna hostil, não hesita em reconhecer que tudo se deve «à fraqueza da evangelização», que tornou os cristãos «mornos» e que, mais do que nunca, urge conduzir a Igreja «a retomar a força da evangelização».
Em Paris, o Papa Leão XIV falou de uma «correta laicidade», ou de uma laicidade «verdadeira» e «justa». Para convidar os leitores a um estudo mais aprofundado sobre esta temática, deixo ainda dois apontamentos.
O Papa Bento XVI, também por ocasião de uma visita a França, em 2008, usou as expressões «laicidade saudável» e «sã laicidade». Tudo para «sublinhar e promover uma distinção entre a esfera religiosa e a política», mas que nunca afaste a religião dos espaços públicos. Esta afirmação foi feita depois de ter reconhecido a existência de um «laicismo agressivo».
Também o Papa Francisco retomou a ideia de uma laicidade saudável para sublinhar a «autonomia» da religião, das ciências e da política, depois de afirmar: «Não a um laicismo como o Iluminismo nos deixou».
Esta visita do Papa Leão XIV a França não pode ser encarada como um acontecimento que diga respeito somente à Igreja francesa. Trata-se de um momento em que Leão XIV e Macron revelam uma significativa convergência de pensamento. A França continua a falar. E não se exige apenas um direito. A Igreja Católica tem uma responsabilidade muito grande. A dignidade da pessoa humana não dispensa os valores nascidos do Evangelho.