1. Vivemos na era do descartável. Do usa-e-deita-fora. E o mal é que isso não acontece apenas com as coisas, mas verifica-se também com as pessoas, o que é muito grave.
À semelhança do comportamento que se tem para com os guardanapos de papel, que se estimam enquanto podem ser úteis e se deitam ao lixo depois de usados, assim acontece em relação a algumas pessoas.
É nos meios de trabalho. Enquanto o indivíduo produz, merece um tratamento. Quando, em consequência da idade, da falta de saúde, da perda de capacidades, deixa de produzir ou de produzir quanto se pretende, arruma-se.
É nas buscas de emprego. O candidato é relativamente jovem, admite-se. Se já o não é, fecha-se-lhe a porta.
É, por vezes, entre marido e mulher. Ele ou ela deixaram de ter interesse; deixaram de servir e passaram a dar consumições, faz-se o que se faz a um guardanapo ou a um lenço de papel: afastam-se e vai-se buscar outro ou outra. Troca-se de pessoa como se troca por um novo o carro que passou a necessitar de oficina.
É, por vezes, na família, com os doentes e com os idosos. Deixam de ser úteis, passam a não ter lugar em casa. Arrumam-se. E arrumá-los tanto pode consistir em deixá-los sós, em abandoná-los pura e simplesmente, como no internamento forçado num lar de terceira idade.
2. Esta era do descartável é resultado do comodismo egoísta. Cada um cuida de si, só de si e não mais que de si. Os outros, que se arranjem como puderem e souberem. Merecem atenção na medida em que podem servir ou ser úteis. A partir do momento em que tal não acontece, deixam de contar. São cartas sem lugar no baralho.
Não é apenas no cemitério que se encontram os mortos. Há-os no coração de vivos.
O que devia ser a sociedade do altruísmo e da fraternidade é a sociedade dos interesses egoístas. É a sociedade do bem-estar... para alguns.
3. A verdade, a sensatez, a justiça, o sentimento de gratidão mandam que se diga que o ser humano, seja ele quem for, não deve ser tratado como uma fralda descartável. O ser humano é uma pessoa. É alguém dotado de inteligência e de vontade livre. É alguém criado à imagem e à semelhança de Deus. É alguém dotado de uma dignidade que deve ser respeitada em todas as circunstâncias.
Todo o ser humano é sujeito de direitos. À frente destes encontra-se o de poder viver como ser humano que é.
O tal comodismo egoísta a que me referi levou a que se deixasse de ver no outro uma pessoa e se passasse a ver nele uma coisa. A que o outro passasse a ser tratado como objecto de que se põe e dispõe.
O outro, porém, é um ser humano como eu. Tal e qual. Sem tirar nem pôr. E tenho o dever de o respeitar como quero ser respeitado e como exijo que me respeitem. Nem mais, nem menos.
4. Lembro o número 56 da encíclica de Leão XIV. Nele se afirma que «a tutela dos direitos humanos está hoje exposta a dois riscos particularmente graves. O primeiro é o de uma declaração meramente formal dos mesmos, enquanto, a par do progresso Lc 9, 46-50 na realidade está na base do primeiro, é o de não ser já possível reconhecer o fundamento da sua universalidade, porque se renunciou à ‘busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções e também das nossas leis’».
O Papa Francisco convidava a não subvalorizar este último problema. Recordava que, quando a razão se deixa interpelar seriamente a respeito da natureza humana, é capaz de descobrir valores que importam para todos, porque derivam dela. Se este trabalho de busca fosse abandonado, poderia acontecer que direitos, hoje considerados intocáveis, acabassem por ser, no futuro, postos em causa ou negados por quem detém o poder, talvez depois de ter obtido um consenso apenas aparente por parte de populações atemorizadas ou manipuladas».