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Danças inconstantes e perigosas

1 - Qual inconstante rei português D. Fernando I, o americano Donald Trump persiste no papel de grande agitador na cena política internacional. O nosso rei D. Fernando (reinado 1367-83), de boa figura, segundo o cronista da época, mas muito errático na política internacional (ora em guerra, ora em paz com Castela; ora aliado, ora mais distante de Inglaterra; ora apoiante do Papa de Roma, ora do de Avinhão, no quadro do Grande Cisma do Ocidente) ganhou o epíteto de “o formoso” e “o inconstante”. 

O leitor estará seguro, todavia, de que, no respeitante à imprevisibilidade, Trump desconhece que tem no nosso último rei da I dinastia um émulo à altura, enquanto adivinha também que o Portugal do século XIV não passava de mais um pequeno reino na Europa da época.

Fruto da imprevisível dinâmica imposta por Donald Trump à cena política internacional, o Canadá, fiel ao seu perfil europeizado, mostrar-se-á agora predisposto a apertar laços com a União Europeia. A abordagem imposta pela América de Trump no relacionamento bilateral com o seu vizinho do Norte, tem oscilado entre o ameaçador e o desdenhoso ou desrespeitador, replicando, aliás, o tom adotado para com muitos outros países, inclusive vários velhos aliados. 

Sem que se ignore a relação já relativamente estreita entre as partes, o repto lançado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, ao primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, para um aprofundamento nas relações UE-Canadá não deixa de assumir um perfil surpreendente. O arrojado gesto de Von der Leyen mereceu um acolhimento de princípio do governante canadiano ainda que temperado pelo realismo, pois o Canadá, por força da Geografia, nunca poderá assumir em pleno um estatuto equiparado ao de um país membro da UE. 

Assim mesmo, a vontade de aproximação canadiana não deixa de ser acalentadora para a UE, atenta a conjuntura que a tem envolvido nos últimos anos, acossada a Leste pela Rússia e a Oeste pelo abrasivo e intermitente “aliado” americano. Conforme tenho aqui frisado, a UE bem que precisa de desenhar narrativas positivas para o futuro, diluidoras das memórias negativas dos muitos séculos de uma Europa dividida, onde nações e impérios, por ora extintos, alimentaram ambições territoriais maiores à custa do sangue de milhões de europeus, sobretudo jovens. Façamos figas por uma Europa futura mais pujante, alicerçada numa democracia consolidada. Em última instância, os eleitores europeus, nas múltiplas nações da UE, decidirão o seu percurso conjunto futuro.

2 – No quase longínquo 1983, o filme War Games (Jogos de Guerra), do realizador John Badham, relata a incursão de um jovem aficionado pela informática nos supercomputadores do Pentágono que têm por missão vigiar as ameaças nucleares sobre os EUA e apoiar/sugerir uma retaliação americana. Nesta ficção, a guerra nuclear entre os EUA e a URSS (o grande adversário de então) esteve prestes a acontecer porque, erradamente, o computador do Pentágono, acidentalmente manipulado por este jovem que pensava estar a participar num jogo, sugeria a necessidade de uma resposta nuclear americana a uma supostamente real ameaça da URSS. No filme, a situação resolveu-se a tempo, sem que a América desencadeasse, pela segunda vez (antes, Hiroxima e Nagasáqui), um ataque nuclear contra uma outra nação.

Agora, ao mais alto nível, são responsáveis por empresas de Inteligência Artificial que nos avisam para a possibilidade de esta mesma IA, se não regulada devidamente, se não desacelerada de forma coordenada, poder vir a acabar com a vida na Terra dentro de poucos anos. O alerta é de Dario Amodei, CEO da Antropic, na esteira de presságios apocalípticos como os do matemático inglês Jacob Coxon, que admite que por 2030 a IA, tal como está, poderá ser capaz de tal desmando. 

No respeitante à regulação supranacional da progressão da IA, a competição internacional, designadamente entre os EUA e a China, impõe-se como um obstáculo sério. Não deixar a China com a rédea solta nesta corrida maior do momento é, aliás, um dos argumentos de Trump para hostilizar medidas temperadoras dos avanços neste domínio. 

Esperemos que a lucidez venha a prevalecer e não venhamos a ser vítimas de engenho desmedido. Como sempre, a Inteligência Humana, mais estimável do que a IA, prova-se muito através de exercícios de bom senso.

Amadeu J. C. Sousa

Amadeu J. C. Sousa

21 setembro 2026