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Educação Física no 1º ciclo: se é problema, tem solução.

A introdução obrigatória da disciplina de Educação Física (EF) no 1.º ciclo é uma das medidas previstas no Orçamento do Estado. Ao que parece, o grupo disciplinar dispõe de docentes em número suficiente para responder a esta nova necessidade, pelo que a sua contratação poderá garantir uma intervenção efetiva junto das crianças.

No entanto, quando surgem propostas novas na Educação, em vez de ver o copo meio cheio, há logo quem se preocupe em vê-lo meio vazio, alertando para problemas relacionados com instalações desportivas e balneários. Problemas? Claro que sim. Mas alguém disse um dia algo que, aplicado à Educação, me parece pertinente: se é problema, tem solução. E é precisamente a partir daqui que prefiro olhar para a questão.

Deixem-me sonhar e, com alguma utopia à mistura, acreditar que os municípios que têm responsabilidades na gestão das escolas do 1.º ciclo, são os mesmos que financiam as diferentes coletividades desportivas existentes nas múltiplas freguesias. Campos de futebol, salas de ginástica, pavilhões e/ou piscinas, neste país, há de tudo. Em pouca quantidade para as necessidades, é certo, mas há. Muitos destes espaços, em juntas de freguesia, inclusive, têm reduzida utilização durante boa parte do dia, porque os seus habituais utilizadores, estão na escola e/ou a trabalhar.

Será assim tão difícil reorganizar os horários escolares de estabelecimentos próximos destas instalações, de forma a que umas turmas de manhã, e outras de tarde, possam ter acesso às mesmas? E as carrinhas dos clubes, muitas vezes adquiridas com o apoio dos municípios, não poderiam também dar apoio ao transporte das crianças da escola para as instalações desportivas e regresso à escola, quando a distância possa ser um entrave?

Todos ganhariam. As coletividades desportivas, pois veriam aumentar significativamente o número de potenciais praticantes, podendo ainda beneficiar de um reforço dos apoios destinados a fazer face às despesas acrescidas. As crianças, pois teriam oportunidades de prática desportiva orientada e, potencialmente, melhoria da qualidade de vida, pois as aprendizagens, desportivas e não só, sairiam beneficiadas. Isto porque, é sabido que a crescente iliteracia motora compromete o desenvolvimento das crianças e pode dificultar a sua capacidade de se tornarem adultos mais autónomos e funcionais. Falamos não só de aspetos puramente motores, mas também de dimensões cognitivas, sociais e emocionais.

Ou seja, no fundo, talvez não precisemos de construir um pavilhão em cada escola. Talvez precisemos, isso sim, de encontrar uma forma inteligente de colocar ao serviço das escolas, os espaços disponíveis para prática desportiva existentes nas comunidades. Porque cada passo, por mais pequeno que seja, desde que na direção certa, será sempre positivo.

Quem sabe, assim não possamos dar uma alegria ao professor Carlos Neto, que, há mais de uma década, alertava: “Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável”. Talvez esteja na hora de lhes devolvermos aquilo que nenhuma sala de aula, por melhor equipada que seja, consegue oferecer sozinha: espaço para correr, saltar, jogar, brincar. Em suma, aprender a crescer mais saudável. 


 


 


 


 

Carlos Mangas

Carlos Mangas

18 setembro 2026