Na terceira parte da oração eucarística, a Igreja solicita que o mesmo Espírito Santo, que santificou o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, venha agora santificar os fiéis para que, «fortalecidos com o Corpo e Sangue do teu Filho e cheios do Espírito Santo, formemos em Cristo um só Corpo». É a segunda epiclese que solicita que os fiéis que vão comungar o Corpo eucarístico de Cristo se convertam no seu corpo eclesial. Chauvet é de opinião que este aspeto é também pouco conhecido. E, todavia, não poderia ser mais tradicional. Santo Agostinho, no sermão 272, insistia especialmente neste aspeto, desafiando: «sede o que vedes e recebei o que sois», isto é, sede «eclesialmente» o Corpo que vedes «eucaristicamente», e recebei «eucaristicamente» o Corpo que sois «eclesialmente».
A Igreja nunca esqueceu esta dimensão eclesial, embora a focalização na presença real, a partir do séc. XII, tenha contribuído para deslocar a atenção para a presença real, em detrimento da dimensão eclesial. O que se ganhou na presença real tendeu-se a perder quanto à dimensão comunitária da comida e a relação com a Igreja. Todavia, já o grande São Tomás de Aquino afirmava que, se o objetivo fundamental da Eucaristia era tornar realidade o Corpo e o Sangue de Cristo, era para atingir outra coisa: a sua finalidade última, a sua graça final não é outra coisa que a caridade que une os fiéis uns com os outros por meio da sua comunhão no mesmo Corpo eucarístico de Cristo.
Quando Paulo compara a Igreja com o Corpo de Cristo, composto por diferentes membros, em que cada um desempenha um papel necessário para o bom funcionamento do conjunto, está a afirmar que, converter-se em ‘Corpo de Cristo’, implica um estilo de vida fraterno, com tudo o que isto supõe para uma paróquia, como: o respeito pelas diferentes sensibilidades, o tentar encontrar um lugar para todos, o compromisso com os mais desfavorecidos, etc.
A Eucaristia não é um fim em si mesma. Mateus 25 encarrega-se de nos alertar: é o que tivermos feito pelos irmãos, sobretudo os mais necessitados, que verdadeiramente conta no juízo final. Chauvet atreve-se a dizer com certa ironia: «precisamente porque Deus não nos julga pela nossa presença na missa, é justo e necessário ir à missa dar-Lhe graças». (P. 97)
Se a oração eucarística é fundamentalmente uma ação de graças e o memorial – a anamnese – o seu coração, a doxologia final é o seu cume. Tudo se eleva a Deus. O sacerdote eleva o pão e o vinho para Ele como representação, não só da natureza (fruto da terra) e da história (trabalho do homem), mas também dessa natureza recebida como ‘criada’ por Deus e, portanto, recebida como dom da generosidade divina. O pão e o vinho elevam-se, não só como dons criados, mas como dons transformados pelo Espírito Santo no Corpo e Sangue de Cristo. É um canto solene que deve ser ratificado com um vibrante «Amén» da assembleia. (P. 99)
A dinâmica da oração eucarística pode resumir-se assim: é uma ação de graças que se dirige a Deus Pai e cujo objeto é o dom de seu Filho. Esse dom realizou-se e realiza-se por meio do Espírito Santo, de um tríplice modo: o modo histórico, no passado; o modo eucarístico, no presente; e o modo eclesial: «pelos séculos dos séculos», para o futuro. Nem tudo é dom nesta oração. Para que o dom feito no passado se prolongue no presente e no futuro, é necessário pedi-lo a Deus.
Chauvet realça o papel que cabe ao sacerdote que preside, pois que a liturgia é uma experiência viva, pelo que a ‘forma’ desempenha nela um papel fundamental. O sacerdote deve dar a sensação de que compreende bem o significado do que diz: sem demasiados gestos que desvirtuem o essencial. Enfim, que o modo de dizer esta oração resplandeça com nobre simplicidade.
Simplicidade não quer dizer atitude mais ou menos descuidada, nem uma rigidez, porque isso conduziria a uma sacralização excessiva da oração. Isso pode agradar a alguns, mas não faria mais do que incrementar a distância com outros que não se sentem bem com ela e renunciariam a frequentar a eucaristia. E se é certo que os textos e gestos programados no ritual não podem ser adaptados por cada sacerdote, também não ajuda muito uma conduta demasiado rígida do sacerdote. Deve haver um espaço para a flexibilidade e a liberdade, entendendo que a «maneira correta» de a proferir difere necessariamente em função da personalidade e a vivência iluminada de cada um. (P.p. 102-103)