O passado dia 1 de setembro começou com uma notícia triste: faleceu Enzo Bianchi. Acredito que o nome possa não ser familiar para alguns dos meus leitores, mas, para mim e para muitos, não só é muito conhecido como também respeitado.
Não tenho dúvidas de que foi uma das maiores figurais do nosso tempo e um dos líderes espirituais mais marcantes do cristianismo europeu contemporâneo. Fundou a Comunidade Monástica de Bose, foi escritor, biblista e homem de diálogo, tendo dedicado a vida à procura de Deus e ao esforço por tornar o Evangelho audível a todos.
Nasceu a 3 de março de 1943, em Castel Boglione, no Piemonte italiano, e viveu a sua juventude num período de grandes transformações na Igreja e na sociedade. Tal como aconteceu com muitos jovens do seu tempo, o Concílio Vaticano II abriu-lhe novos horizontes à vida cristã e despertou nele o desejo de viver uma fé mais profundamente enraizada no Evangelho, na fraternidade e na responsabilidade perante o mundo. Podemos dizer que foi neste ambiente que amadureceu a sua vocação.
A sua vida foi marcada pela convicção simples e exigente de que o cristianismo só permanece vivo quando regressa continuamente à fonte: Jesus Cristo e a sua Palavra. Talvez por isso, depois dos estudos universitários em Turim, tenha decidido retirar-se para Bose, uma aldeia então quase abandonada, na região do Biellese. Foi aí que, nos anos sessenta, começou uma experiência monástica que havia de se tornar conhecida bem para além das fronteiras italianas. Os primeiros irmãos e irmãs chegaram em 1968 e Enzo Bianchi participou na elaboração da regra de vida da nova comunidade, assente na escuta da Palavra, na oração comum, na vida fraterna, no trabalho e na hospitalidade.
Tratando-se de uma comunidade marcada por uma profunda dimensão ecuménica, reuniram-se em Bose cristãos provenientes de diferentes tradições eclesiais, unidos por dois desejos fundamentais: procurar Deus e viver segundo o Evangelho. Assim se constituía uma espécie de profecia: antes de discutirem as diferenças que os separavam, era necessário reconhecer o que os unia: a fé em Cristo, a Palavra de Deus e o desejo de caminhar para a comunhão.
Bose tornou-se um espaço de acolhimento para pessoas crentes e não crentes, para sacerdotes, religiosos, jovens, intelectuais e simples peregrinos. Foram e são muitos os que ali encontra(ra)m a possibilidade de fazer silêncio, de escutar a Palavra, de rezar e de recuperar a dimensão interior muito esquecida no ritmo acelerado dos nossos dias.
Quando lemos os livros de Enzo Bianchi, descobrimos facilmente uma linguagem clara, direta e, por vezes, provocadora. Não procurando esconder as dificuldades da fé, reconhece que acreditar é também atravessar dúvidas, obscuridades e momentos de silêncio. Num mundo marcado pelo individualismo, pela competição e pela indiferença, insistiu muito na fraternidade, na necessidade de reaprender a viver com os outros. Daí a sua insistência na vida comunitária, que exige paciência, perdão, escuta e aceitação das diferenças. Viver em comunidade é reconhecer que ninguém é autossuficiente e que cada pessoa é, ao mesmo tempo, um dom e uma responsabilidade.
Percebe-se, pelos seus escritos, que a Palavra de Deus ocupou sempre um lugar central na espiritualidade de Bose. A Bíblia não era para ele um livro reservado aos especialistas ou aos ambientes académicos. Era, antes, uma palavra viva, capaz de iluminar a existência humana e, por isso, a aproximou da vida concreta das pessoas.
No campo mais vasto da vida humana, a sua reflexão carateriza-se por uma profunda atenção às questões concretas da amizade, do trabalho, da doença, da velhice e da morte. Defendia uma espiritualidade cristã encarnada: Deus encontra-se na realidade humana e, por isso, a vida quotidiana pode tornar-se um lugar de encontro com Ele. O pão partilhado, a hospitalidade oferecida, o cuidado pelos mais frágeis e a fidelidade às pequenas coisas eram, para ele, expressões concretas da fé.
Através da Comunidade de Bose e da editora Qiqajon, fundada em 1983, Enzo Bianchi exerceu uma influência significativa na renovação espiritual e cultural de muitos cristãos. A publicação de obras de espiritualidade bíblica, patrística, litúrgica e monástica contribuiu para tornar acessível o vasto património da tradição cristã. Ao mesmo tempo, a sua atividade como escritor e conferencista levou-o a dialogar constantemente com os grandes mestres e problemas do nosso tempo.
Os últimos anos da sua vida foram marcados por algumas tensões e pelo afastamento da comunidade que ajudara a fundar e conduzira durante décadas. Mas nem por isso perdeu valor e capacidade de intervenção e de provocação.
Enzo Bianchi faleceu no passado dia 1 de setembro, aos 83 anos. Deixa-nos um legado espiritual, bíblico e cultural de enorme amplitude. Com a sua morte, fecha-se uma importante fase do catolicismo italiano e europeu do pós-Concílio, mas o seu pensamento vai continuar a interpelar-nos. Talvez a sua grande herança possa resumir-se no voltar ao essencial: ao Evangelho, à escuta, ao silêncio, à fraternidade. Num tempo em que as palavras se multiplicam e tantas vozes procuram impor-se, ele recordou que o cristão começa por ser alguém que escuta: escuta Deus, os irmãos e também as feridas e as esperanças do mundo.
Enzo Bianchi é, sem dúvida, um dos nomes maiores do cristianismo contemporâneo. Apagou-se a sua voz, mas continua a falar bem alto o seu testemunho.