Há rios que unem territórios. O Cávado deveria ser um deles. Dá identidade à nossa região, atravessa concelhos e acompanha alguns dos principais polos económicos do Minho. Mas, quando falamos de mobilidade, existe um paradoxo: o rio que nos une é também o rio que nos separa.
Nas últimas décadas, Braga expandiu-se, Vila Verde cresceu, Barcelos desenvolveu-se e os parques empresariais ganharam dimensão. Aumentaram as deslocações entre concelhos, mas as travessias não acompanharam esse crescimento. Com poucas alternativas, o trânsito concentra-se nos mesmos locais e qualquer acidente, obra ou condicionamento numa ponte afeta toda a rede.
A Ponte do Bico é o exemplo mais simbólico. A ligação entre Braga e Amares entrou ao serviço em 1866. Tem 160 anos. Apesar das intervenções realizadas, continua a desempenhar uma função essencial numa realidade de mobilidade muito diferente da do século XIX.
Em Prado concentram-se muitas deslocações entre Braga e Vila Verde. Em Barcelos já foi reconhecida a necessidade de uma nova ponte urbana. Em Fão, outra ponte histórica continua integrada num eixo fundamental. Uma região que cresceu económica, urbana e demograficamente não pode continuar tão dependente de travessias pensadas para outra época.
A diferença de planeamento face às áreas metropolitanas é difícil de ignorar. Lisboa, que já dispõe de duas grandes travessias rodoviárias sobre o Tejo, prepara novas ligações: a ponte rodoferroviária Lisboa-Barreiro e o túnel rodoviário entre Algés e a Trafaria. Está a planear as travessias de que precisará amanhã.
No Porto, além das infraestruturas associadas à alta velocidade ferroviária, Porto e Vila Nova de Gaia avançaram com uma nova ponte pedonal e ciclável sobre o Douro, com um investimento estimado em 25 milhões de euros e conclusão prevista para 2029.
Enquanto no Porto se planeia uma ponte para peões e bicicletas, no Cávado algumas das principais ligações rodoviárias continuam dependentes de pontes do século XIX. O problema não é o investimento em Lisboa ou no Porto. É outras regiões não beneficiarem da mesma capacidade de planeamento e investimento estrutural.
Por cá, continuamos demasiadas vezes entre estudos, projetos e intenções que atravessam mandatos. A Variante do Cávado é um exemplo: há anos que é apontada como essencial para melhorar as ligações entre Braga, Vila Verde e Amares, retirar trânsito de atravessamento e servir zonas empresariais. Quantos anos mais teremos de esperar?
Continuamos também a pensar a mobilidade dentro das fronteiras administrativas. Mas quem vive em Vila Verde ou Amares e trabalha em Braga precisa de chegar ao destino, independentemente dos limites de cada concelho. A mobilidade das pessoas é regional. O planeamento também tem de o ser.
Precisamos de um Plano Intermunicipal de Travessias do Cávado que analise o tráfego, os movimentos pendulares, o crescimento urbano, as zonas industriais e o transporte público, identificando onde serão necessárias novas ligações e estabelecendo prioridades, prazos e responsabilidades para a sua concretização. Não significa construir pontes em todo o lado: umas poderão ser pedonais e cicláveis; outras servir o transporte público e rodoviário ou criar corredores estratégicos entre concelhos.
O Cávado é uma região industrial, exportadora, universitária e densamente povoada. Os seus concelhos estão cada vez mais interligados. Essa realidade exige infraestruturas à altura. Rotundas, pequenos alargamentos e requalificações podem ser necessários, mas não substituem uma visão estratégica para o território.
Está na altura de discutir seriamente as próximas travessias. Não por bairrismo, nem porque Lisboa ou o Porto vão ter mais uma ponte, mas porque uma região que quer crescer precisa de alternativas para atravessar o seu principal rio.
O Cávado deveria aproximar os nossos concelhos. Hoje, demasiadas vezes, funciona como uma barreira que concentra trânsito e condiciona a vida de milhares de pessoas. Está na altura de transformar o rio que nos (des)une no rio que verdadeiramente nos une.