É com alguma apreensão que vemos tantas e tão intensas propostas de diversão: noites brancas, festivais de comida/bebida, festas e folclores, romarias e sinais de festa. Passado que foi o tempo de verão continuamos a ser fustigados por propostas aliciadoras para que se goze a vida com aquilo que melhor se conhece, se aprecia e com que festeja. Mas será isso o verdadeiro ou não andaremos alienados por coisas que se reduzem ao materialismo mais básico e primário? Teremos de condicionar-nos deste modo ao efémero e superficial? Onde e como manifestam os cristãos a diferença?
1. Se há coisas que me deixam a pensar seriamente é a abundância de comida e de bebida por ocasião das festas populares, tenham ou não o selo religioso. Ao observar a avidez de tantas pessoas a comer, fica-me a sensação de que se passa muita fome no resto do ano. Isto tem não só a ver com a quantidade, mas mesmo com alguma sofreguidão: vi isto em diversos locais do país e em momentos distintos do ano civil. É certo que os tempos de festa são propícios à confraternização e mesmo à partilha, mas, em certos casos, podem disfarçar outros aspetos mais subtis e menos captados… à vista desarmada.
2. Ainda sentimos no ar os efeitos da onda que percorreu a comunicação social – sobretudo audiovisual – de programas de gastronomia, com concursos, ensinamentos-aprendizagens, vitórias e derrotas, sucessos e desistências de tanta gente que quis mostrar as suas habilidades com o degustar. Pulularam, entretanto, restaurantes e botequins, onde se pretendia angariar clientela pela boca. Não tem havido autarquia que se preze que não ostente um evento de comidas-e-bebidas, desde as mais tradicionais até às pretensamente ousadas na forma e no conteúdo: grandes apostas e tentativas de ganhos rápidos enchendo o pessoal de contentamento pela boca em qualidade e quantidade…
3. Parecíamos um povo esfomeado e em busca de satisfazer as necessidades mais básicas de alimentação. Se nos guiarmos pela observação de que a publicidade serve de orientação quanto ao estado de um país/nação ou mesmo de uma cultura, então, como que poderemos considerar que regredimos no coletivo nacional, pois, os anúncios sobre comida, bebida e de tantas outras coisas para alimentação voltaram ao cardápio social e ao tempo de antena da comunicação social, áudio, vídeo ou escrita. Promoções, descontos, campanhas, festivais, confrarias, banquetes… eis alguns dos ingredientes de todo este culto àquilo que se pretende apresentar como algo a ver com a alimentação, seja na forma de sobrevivência (combater a fome), seja no modo de convivência social (festas e festanças) ou até de dinâmica cultural (promoção turística)…
4. Em sentido contrário vai a necessidade – de saúde ou até estética – de perder peso. Aqui entra um outro dispositivo socio-sanitário: da possibilidade de comer a mais à provocação de emagrecer, nalguns casos, a todo o custo. Muito para além da ditadura da imagem, será preciso compreender corretamente do morrer por falta de alimento (fome) ao excesso de comida (obesidade). Os campos são como que contraditórios, mas a mentalidade parece idêntica: comer – uma necessidade ou um problema? Se, de facto, há tanta gente a morrer de fome, não menos pessoas morrem de abundância e até de excesso.
5. Quase sem nos darmos conta caímos em exageros, que precisam, urgentemente, de correção. Hoje a visão epicurista da vida – onde a comida entra em larga escala e simbólica pressão – coloca-nos (ou devia colocar-nos) problemas de consciência e exigências de comunhão muito para além da desgraça: cuidamos da fome material, mas negligenciamos a vivência e equilíbrio emocional, afetiva e espiritual, tanto ao nível pessoal quanto na vertente coletiva/social.
6. Que dizer dos gastos sumptuosos de casamentos, batizados, festas e comezainas? Não haverá uma noção excessivamente materialista da vida, da saúde, da família e da conveniência…enfatizando o ‘comer-e-o-beber’ como o máximo ou o tudo da vida? Não há gente que parece mais viver para comer do que come para viver?