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GANHAR O MUNDO, PERDER A ALMA

Há perguntas que atravessam os séculos, interrogando a própria existência humana e adquirindo, em cada época, novas formas de leitura. «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?» (Marcos 8:36). Esta provocação formulada por Jesus tem uma atualidade desconcertante. Viver para corresponder às expectativas dos outros, conquistar aprovação e preservar aparências pode levar-nos, nesse esforço, a afastarmo-nos progressivamente de nós mesmos e da possibilidade de construir relações verdadeiramente significativas com os outros.

Quantas vezes trocamos a verdade interior pela validação exterior? Para agradar, dizemos «sim» quando o coração disse «não»; permanecemos onde já não florescemos; calamos o que sentimos para evitar conflitos; assumimos papéis que os outros esperam que assumamos, mesmo quando se tornam pesados e estranhos à nossa subjetividade. Pouco a pouco, a vida pode transformar-se numa representação e nós, atores da nossa própria existência, já nem sabemos onde termina aquilo que somos e começa aquilo que fingimos ser.

Surgem, então, as aflições, as angústias, as desilusões e uma tristeza difícil de nomear. Por que razão, ao fazermos tudo aparentemente «certo», nos sentimos assim? Por que razão este vazio em nós? Talvez porque ninguém consiga viver indefinidamente contrariando a própria natureza, ignorando os sinais, reprimindo a espontaneidade, sofrendo pela incapacidade de reconhecer o próprio rosto. Sem alma, tornamo-nos um corpo afastado da própria interioridade, incapaz de escutar aquilo que o inconsciente procura revelar.

Ganhar o mundo é essa procura de prestígio, sucesso, estatuto e aprovação daqueles cuja opinião aprendemos a temer. Mas de que serve tudo isso se, para o conseguir, sacrificámos a nossa verdade? Que vitória é essa, feita de aplausos que não encontram eco na nossa interioridade?

Cuidar da alma é viver aquilo que, em nós, pede sentido e coerência. A fidelidade é, antes de mais, para com a própria consciência. Ser fiel a si mesmo exige, por vezes, uma ética contraposta à moral. É preciso deixar de perguntar «o que se espera de mim?» e começar a perguntar-se «o que é verdadeiro em mim?». Trata-se de recuperar um centro interior a partir do qual possamos amar e servir sem nos perdermos. Quem vive apenas para agradar acaba por oferecer aos outros uma mentira, uma versão de si mesmo na qual, silenciosamente, se torna irreconhecível para si próprio.

No fim, a questão não é escolher entre nós e os outros, mas aprender a estar com os outros sem nos trairmos. A alma pede coerência, pede que aquilo que pensamos, sentimos, dizemos e fazemos possa habitar a mesma casa, que nos reconciliemos com a verdade que fomos adiando e que tenhamos a coragem de viver de acordo com ela.

Quando chegar a hora da autoavaliação, essa que inevitavelmente a vida nos impõe, que a pergunta decisiva não sejam sobre quantas pessoas conseguimos impressionar, nem quantos elogios recebemos, nem quantas expectativas conseguimos satisfazer. Que a pergunta seja: «foste fiel àquilo que, no mais profundo de ti, sabias ser verdadeiro?»

Pável Modernell

Pável Modernell

14 setembro 2026