“Eu sou quase tudo o meu passado, quase nada o meu presente e, obviamente, nada o meu futuro”. (Anónimo)
Estou convicto que o passado, de cada um, é o alicerce da sua construção como ser social, cultural e político. É no passado que estão mergulhadas as raízes, as vivências - boas e más - e as recordações da nossa formação como seres civilizados. E como seres construtores. Como seres mais ou menos sensíveis por aquilo que nos rodeia. O presente, o agora, limita-se a ajustar os cordelinhos do passado para nos tornarmo-nos mais pessoa. Cidadãos mais disponíveis para a inter-acção social. Mais libertos de preconceitos, mais racionais e, naturalmente, mais maduros para se ver e sentir os movimentos do mundo pelas objectivas da responsabilidade e do realismo. Prepara-nos para podermos sonhar. As fantasias, as ilusões, as vaidades, a excessiva visibilidade para mostrar a pequenez natural de que somos capazes não giram nesta órbita.
1 - Tive a sorte, na minha adolescência e na minha juventude, de ter conhecido, vivido e convivido com o padre Fonseca em Merelim São Pedro. O padre Fonseca, quando chegou à paróquia, era um jovem cheio de ideias e de vontades. Trazia com ele muito entusiasmo e uma energia quase ilimitada. Em pouco tempo, esse seu talento, essa sua enorme preocupação de mudar mentes e destinos, germinavam e solidificavam no tecido social e cultural da freguesia. Esse tempo de efectiva mudança, a todos os níveis, criou uma onda gigante de inconformismo numa juventude ávida de conhecer outros horizontes. De sentir outras experiências. De ter outros contactos. O padre Fonseca criou o Escutismo, um jornal, “A Candeia”, um Centro de Assistência, a Legião de Maria, a Obra das Mães e como marca relevante e inesquecível a Colónia de Férias na praia das Marinhas para as crianças da catequese. Crianças que se socializavam num ambiente benigno, seguro e saudável. Criou o padre Fonseca uma ideia inovadora de envolvimento, de participação, de entusiasmo, de orgulho e de inconformismo numa comunidade demasiada conformada. Grande homem e grande Padre! Grande companheiro e grande guia espiritual! Acima de tudo, um homem humilde, que não procurava a vaidade e o elogio fácil. Um homem à frente dos tempos e dos acontecimentos.
2 - Merelim São Pedro mudou no tempo. O padre Fonseca foi o grande obreiro e responsável. Mudou a comunidade com repercussões assinaláveis na vida dos seus paroquianos. Esta lufada de ar fresco ainda hoje é notada e sentida na freguesia. Um ar novo vindo de um padre irreverente que recusava unicamente ocupar espaço e rejeitava a ideia de ser “mais um”. Deixou um legado de grande valor social, cultural e religioso.
3 - Quem sentiu os ecos desse movimento, desse exemplo, não se afina pela presunção, nem espalha etiquetas inscritas em inertes como símbolos esclarecidos de uma mediocridade satisfeita. Dá pena ler as placas evocativas que se vão semeando pela comunidade como se fosse o espelho construtivo de obras faraónicas. A vaidade e a necessidade doentia de visibilidade comunicacional de aparecer nas redes sociais ou nas páginas dos jornais ao lado de figuras que estão no pedestal são as virtudes visíveis de uma mediocridade já instalada num perfil de arrogância que pretende mostrar serviço numa comunidade em que se esteve invisível durante tempo demais.
4 - Quem é grande não precisa deste tipo de atributos. O padre Fonseca, como grande modificador social e cultural, fez da humildade o seu caminho, da simplicidade a sua estratégia e do entusiasmo de que era imbuído o acelerador cultural para cativar os jovens. Só os fracos é que precisam de aduladores e de artefactos académicos para mostrar as suas fraquezas numa comunidade que pouca liga a essas gavinhas já ressequidas.