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A abstenção é uma cobardia

A moção de censura ao governo foi, como se previa, uma derrota do Chega que se adocicou por se auto transformar num protesto. Mas não é por isso que aqui intervimos; fazemo-lo porque nos voltamos a não admirar com aqueles partidos que se abstiveram, principalmente com o PS que contamos ser governo alternativo. A abstenção é uma cobardia, dizendo assim forte e feio. Custa-me ver este PS de Luís Carneiro entrar pela via do lavar de mãos, como Pilatos. Já lá vão os tempos em que o PS tinha opinião própria, sua de sua matriz, sobre as problemáticas das discussões parlamentares. Para onde foi essa coragem que agora se coloca atrás da cortina e foge para o vazio da razão? Então não tem uma avaliação realista daquilo que está em causa que determine uma posição de sim ou não? É preciso sacudir a chuva do capote mesmo que isso faça corar o mais descarado? O PS tem medo de si mesmo, de ser quem é? Donde lhe veio essa cobardia que envergonha os partidários? Então um partido fundador da democracia, o partido de Mário Soares, foge esmorecido da responsabilidade política e esconde-se atrás duma abstenção que dá razão a quem diz, antes cobarde vivo que herói morto. Esta tibieza de ânimo, é uma doença que infelizmente não é apenas do atual PS; a votação mostrou quem são os Pilatos da política parlamentar, mas nenhum dos compinchas de ocasião, são ou têm o valor do PS. É que o PS não é, nem nunca foi, um partido de protesto; foi e deve continuar a ser um partido de governança. Não pode fugir a ter uma posição bem definida. Talvez sim ou talvez não é uma hesitação que demonstra falta de coragem que o PS teve, de sobra, na luta contra a ditadura. A proposta era do Chega, e depois? Se o PS entendia que a censura era justa, votava a favor, senão votava contra. Agora abster-se, parece-me mais usual dos partidos que não têm alma bastante para tomar uma posição. Pilatos lavou as mãos mas certamente não lavou a consciência. Os senhores deputados, em tais situações deveriam ter liberdade de voto. Se assim fosse acredito que muitos deles diriam sim ou não porque teriam vergonha de falta de coragem para mostrar a cara. Cara que assim se suja e só se limpa quando tiver a coragem de tomar uma posição inequívoca. Evitaram uma crise a sacrificaram a honra do partido, honra e tradição, em prol da continuidade?! Mas então votavam contra a moção e não precisavam de se engrolar, agachados na comodidade de uma abstenção. Passei algum tempo a ver a discussão da moção do Chega e fiquei, mais uma vez, a verificar que cada partido tem um grelhador onde assa as suas sardinhas. Só o País não tinha grelhador.

Paulo Fafe

Paulo Fafe

14 setembro 2026