Num dos últimos trabalhos publicados no DM, escrevi que a democracia lusa tem um encanto singular. É fixe em toda a sua extensão e tem tudo para ser, cada vez, mais fixe. As democracias europeias até podem ser muito divertidas. Mas, como a lusa não há nenhuma com certeza.
1 - Comecemos pelos arautos do humanismo, das solidariedades e do combate às desigualdades: a extrema-esquerda. Boazinha e iluminada. Reduzida a nada e incompreendida. Manhosa, mas cheia de boas ideias. Tem tão boas ideias que o eleitor não as quer. Uma grande injustiça! Não merecem a insignificância. Passemos ao lado oposto: a extrema-direita. Irritada e muito chata. Mais chata que a potassa. Vê a governação de Montenegro sempre com tempestades de grau cinco. E não há volta a dar a esta corrente barulhenta e muito incomodada. A seguir, os campeões da governação: o neo-socialismo. Às vezes diz-se social-democrata, outras vezes veste a capa de socialismo-democrático e outras vezes inclina-se para as origens, como aconteceu em 2015. Mas, tem uma vocação histórica que carimbou ao longo dos tempos: falha sempre no poder, quer na primeira versão, quer na segunda, quer ainda na terceira. A sina está traçada, com o agravante de ficar, como sequela dos falhanços: fica desmemoriado.
2 - O mais singular desta democracia encantadora é que a oposição quer governar. Acha-se no direito de governar. Depois, acontecem coisas estranhas, como geringonças, que deturpam e conspurcam a realidade eleitoral. Aconteceu com o insigne dr. Costa em 2015 e aconteceu nos Açores com JMBolieiro. O vencedor eleitoral, Vasco Cordeiro, viu o poder por um canudo. E até hoje está na oposição. E não terá a médio prazo qualquer hipótese de voltar à cadeira do Palácio da Conceição em Ponta Delgada. O mesmo irá acontecer, em caso de vitória eleitoral, a JLCarneiro. Este líder, considerado “refugo”, não terá chances de ter o poder. Isso é certo!
É precisamente este ponto que me predispôs a reflectir. À oposição já não basta importunar, fiscalizar, propor. Levantar a voz e pôr-se em bicos de pés. Quer governar, nem que engendre um golpe eleitoral como alvitrou o partido Livre logo após as eleições de 18 de Maio de 2025.
3 - Governos minoritários são uma grande maçada para uma governação eficiente, tranquila e com prazo de validade de quatro anos. Um governo minoritário é também um empecilho para o país, para as pessoas e para as empresas. Fundamentalmente, para a responsabilização de quem está no poder. Este tem que negociar (ceder a chantagens?) para tentar durar uma legislatura. Em caso de falhanço, o governo apresenta sempre o alibi que não o deixaram governar. E assim, sacode a água do capote e atira as culpas directas para a oposição.
4 - Neste ponto de vista, não deveria haver governos minoritários. Quem ganhasse as eleições, mesmo por um voto, governava como tivesse maioria absoluta. A Grécia, a origem da democracia, faz isso mesmo. O partido mais votado governa. O sistema dá-lhe os deputados necessários para lhe conferir maioria qualificada. Desta maneira, o partido do governo tem que assumir por inteiro as suas responsabilidades. Assim, o eleitor saberia como votar nas próximas eleições. Votaria conforme o bom ou mau desempenho do governo. Não teria dúvidas na escolha que iria fazer. Também se evitariam “palhaçadas” no Parlamento, como ameaças de CPI’s e de Moções de Censura. Desta maneira, a democracia funcionaria a pensar no país e nas pessoas e nunca na obtenção de dividendos partidários.
Nota final - Montenegro só merece parabéns. Tem tido uma paciência notável para aturar esta oposição. O país está a crescer e muito, o emprego está no pleno e a ambição é muita para melhorar a vida das pessoas e das empresas. Grande líder! O que é que a oposição quer, afinal?