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Navalhas de Palaçoulo

Se o som identitário dos transmontanos é a gaita-de-foles, a navalha de Palaçoulo é o objeto que trazem no bolso. Produzida por cutelarias locais, perpetua técnicas tradicionais, combinando saber ancestral, criatividade e personalização.

O território da Comunidade Intermunicipal (CIM) Terras de Trás-os-Montes (TTM) conserva tradições que a geografia e a vida comunitária ajudaram a manter ao longo dos séculos, mas abraça o futuro também com sustentabilidade e inovação.

Os rigores do clima e a diversidade de vales, planaltos e montanhas moldaram uma cultura de adaptação e resiliência. A história ecoa por toda a parte, desde os vestígios castrejos aos testemunhos romanos. Como no restante Noroeste Peninsular, a organização territorial consolidou-se entre a Alta Idade Média, a Reconquista e a formação do Reino de Portugal. Contudo, foi sobretudo nas épocas moderna e contemporânea que a progressiva centralização política e económica em Lisboa contribuiu para que estas terras se tornassem mais periféricas no contexto nacional. O território teve um papel relevante na fixação e defesa da fronteira, processo que culminou com o Tratado de Alcanizes, em 1297. Mais tarde, voltou a assumir importância estratégica nos conflitos com Espanha, nomeadamente na Guerra da Restauração e nas invasões napoleónicas.

A ligação à terra permanece omnipresente. A divisão entre Terra Fria e Terra Quente constitui uma expressão da diversidade transmontana. Consagrada por geógrafos, etnógrafos e agrónomos nos séculos XIX e XX, traduz diferenças de clima, altitude, práticas agrícolas e pastorícias entre as montanhas e os vales mais quentes do sul. Contudo, as alterações climáticas, as pragas e doenças, a evolução tecnológica e a globalização dos mercados estão a transformar esta realidade. Os negrilhos tornaram-se mais raros, algumas culturas outrora dominantes perderam relevância, enquanto outras ganharam terreno. Surgem olivais em zonas anteriormente consideradas demasiado frias e os soutos expandem-se para novas altitudes.

Nas últimas décadas, as acessibilidades alteraram profundamente a geografia económica do território. A autoestrada A4 tornou-se a espinha dorsal que aproxima Bragança, Macedo de Cavaleiros e Mirandela dos grandes centros urbanos do litoral e da vizinha Espanha. O IC5 cumpre uma função semelhante no sul do território, servindo Vila Flor, Alfândega da Fé, Mogadouro e Miranda do Douro. A anunciada concretização da melhoria das acessibilidades a Vinhais e a Vimioso renova a esperança. Falta também cumprir as ligações entre a A4 e a A52 espanhola.

Mas Trás-os-Montes também transporta a memória de oportunidades perdidas que alimentam uma persistente perceção de distância ao poder central. O desaparecimento da ferrovia, o declínio do complexo do Cachão e a limitada valorização do aeródromo de Bragança são frequentemente evocados como exemplos de projetos que poderiam ter sido estruturantes.

No plano cultural, o Abade de Baçal é referência maior da historiografia regional. Miguel Torga ajudou a construir o mito da alma transmontana; Rentes de Carvalho descreveu as suas contradições; A. M. Pires Cabral narrou a paisagem humana e natural; e Graça Morais deu cor e forma a emoções e silêncios, bem como à força do feminino. Já Amadeu Ferreira foi decisivo para a afirmação literária e jurídica da língua mirandesa e para o seu reconhecimento oficial, em 1999. As Festas de Inverno, os Caretos, os Pauliteiros, a música tradicional, a gastronomia, com destaque para o butelo, são património imaterial de uma identidade singular.

Durante séculos, a emigração foi equilibrada por elevadas taxas de natalidade, algo que desapareceu, tornando a demografia o principal desafio contemporâneo. A resposta não se encontra em discursos nostálgicos, mas na criação de oportunidades de emprego qualificado, capazes de atrair jovens, fixar população e valorizar talento. E a coesão territorial deve assentar em políticas nacionais robustas, complementadas por instrumentos da União Europeia.

Uma economia mais diversificada e competitiva convoca todos os concelhos. Bragança afirma-se como o principal centro administrativo, industrial e de ensino superior. Mirandela e Macedo de Cavaleiros consolidam-se como importantes polos agroindustriais. Vinhais continua associada à castanha e ao fumeiro. Nas Terras de Miranda (Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso), a raça mirandesa, a cutelaria e a tanoaria, a produção de energia renovável e um património histórico e cultural singular são fatores de diferenciação. Em Vila Flor e Alfândega da Fé, a amêndoa, a azeitona, a cereja e outras produções sustentam cadeias de valor cada vez mais sofisticadas. 

A indústria tem aumentado o seu peso económico e exportador, embora dependa de forma significativa de um conjunto reduzido de empresas e da cadeia automóvel. Em paralelo, o turismo regista um crescimento consistente. A cidade de Bragança, os Parques Naturais de Montesinho e do Douro Internacional, o Geopark Terras de Cavaleiros, a Albufeira do Azibo, a monumentalidade de Miranda do Douro e, mais recentemente, os Lagos do Sabor, demonstram um enorme potencial. A expansão da oferta hoteleira e a qualificação dos serviços são passos necessários para consolidar esta dinâmica.

Há sinais encorajadores no domínio da inovação, embora a melhoria das comunicações digitais continue a ser uma condição essencial. O setor agroalimentar tem evoluído para mercados mais exigentes, valorizando e certificando produtos, entre os quais 23 DOP e IGP. Neste contexto, a agora Universidade Politécnica de Bragança é determinante enquanto produtora de conhecimento, parceira das empresas e motor de internacionalização.

O futuro da TTM dependerá da capacidade de combinar identidade e modernidade. O reforço da cooperação transfronteiriça ajudará a enfrentar desafios comuns de interioridade e envelhecimento populacional. A ambicionada nova ligação ferroviária ao Porto e a Espanha poderá representar uma transformação comparável à que a A4 trouxe no início deste século. Mas nenhuma infraestrutura substituirá o que sempre distinguiu estas terras: a capacidade de adaptação das suas gentes.

Ser daqui, para um transmontano, é precisamente isso. É guardar a navalha no bolso, sem deixar que ela se transforme numa peça de museu. É ter os pés firmes na terra e as mãos estendidas ao conhecimento que pode construir o futuro. É honrar a herança recebida, sem receio de a transformar. Porque a verdadeira tradição não é permanecer igual. É saber continuar.

António M. Cunha

António M. Cunha

2 setembro 2026