O turismo é movimento; a peregrinação é movimento. Muito os aproxima. Será que nada os distingue?
No turismo, o movimento é principalmente físico. Na peregrinação, o movimento é sobretudo metafísico. O turista perambula de lugar em lugar; o peregrino ruma a um lugar para se transformar.
No turismo, predomina a deslocação enquanto que na peregrinação prevalece a transformação. Em consequência, o turista passa e o peregrino pára.
O espaço sagrado, para um turista, constitui um momento de passagem; para um peregrino, desponta como uma oportunidade de paragem.
É por isso que o percurso de um turista para o lugar de culto é um tempo de descompressão.
Já o roteiro de um peregrino para a Casa de Deus é especialmente um convite à oração.
Se um santuário é lugar de oração – exorta a Santa Sé –, a peregrinação «é chamada a ser um caminho de oração».
Em cada uma das etapas, «a oração deverá alentar a peregrinação sendo a Palavra de Deus a luz e o guia, o alimento e o apoio».
O início da peregrinação – desejavelmente numa igreja – há de ser marcado pela «celebração da Eucaristia e por uma bênção especial para os peregrinos».
A última etapa deverá ser assinalado por «uma oração mais intensa; aconselha-se que, quando se avista o santuário, o percurso seja feito a pé, em procissão, rezando e cantando».
O acolhimento aos peregrinos «poderá ocasionar uma espécie de "liturgia de entrada", que situe o encontro entre os peregrinos e os responsáveis pelo santuário no plano da fé».
Sem pressas, a permanência no santuário é «o momento mais intenso da peregrinação devendo caracterizar-se pelo “compromisso de conversão”».
É precisamente na conversão que se consubstancia a peregrinação como transformação.
Daí que, antes do desfile de telemóveis para sinalizar a presença, a primazia tenha de ser dada à procura do Sacramento do Perdão, ao recolhimento contemplativo, à recitação do Rosário e, maximamente à participação na Eucaristia.
Eis, assim, o barómetro. Se houve apenas passagem para uma visita, aconteceu turismo. Para haver peregrinação, os requisitos envolvem a Oração e não dispensam a Confissão e a Eucaristia.
A conclusão, na igreja donde os peregrinos partiram, consistirá numa nova oração. Nela, «os fiéis dão graças a Deus pelo dom da peregrinação e pedem ao Senhor a ajuda para viver, em compromisso mais generoso, a vocação cristã».
Havendo recetividade, é possível que o turista se transfigure em peregrino.
Basta que incorpore a natureza do lugar em que se encontra e não se limite a passar, dispondo-se também a parar, a meditar e a participar.
Tal como outrora havia eremitas que viajavam espiritualmente aos lugares santos, é deveras salutar que a mobilidade actual seja não apenas física, mas também metafísica.
Já Santo Alberto Magno, no século XIII, reconhecia que tudo é movimento. Importante é que o movimento são se limite à deslocação, fomentando prioritariamente a (tão necessária) transformação!