A política não pode ser só um jogo de palavras e desculpas esfarrapadas. A democracia exige muito mais. Exige transparência e verdade. Não nos devemos conformar com palavras vazias, com retórica repetida para que pareça sentida e explicativa. Não raras vezes, há evidências que não podem ser escamoteadas e, por isso, merecem explicações cabais que não são dadas, ainda que solicitadas com insistência. A culpa não pode ser imputada apenas a um Governo, mas isso não é desculpa para nenhum, nem para o actual, nem para os que lhe antecederam, para dizer que determinado procedimento foi sempre de determinada maneira. A tradição pode até fazer regra, mas não desculpa e muito menos faz princípio.
Alguma vez os Governos se têm perguntado sobre o que o povo quer, quais as suas efectivas necessidades? Não tem teimado antes em prosseguir o seu próprio programa, ainda que sufragado, ignorando que o povo pode não ter entendido as propostas vencedoras durante a campanha eleitoral? Evidentemente, que o país precisa de reformas estruturais, mas é legítimo perguntar-se: a que custo para as gerações presente e futuras? Se não são respeitados os partidos da oposição que representam uma parte significativa da população, como se pode acreditar que o Governo de um país tem presente na sua missão o bem das pessoas? Não se escuta tantas vezes que esta, aquela e aqueloutra medida beneficia apenas e só uma pequena franja da população em detrimento de uma grande maioria sem que esta seja compensada de alguma forma? Quem nos governa tem em vista o bem comum ou salvaguardar interesses pessoais? É capaz de renunciar a si mesmo, decidir com fidelidade e radicalidade sobre as promessas que fez aos eleitores que o elegeram, ainda que exigentes e difíceis de concretizar, e que possam ir contra os seus próprios interesses e projectos pessoais? Para não ir mais longe, o actual Governo tem uma genuína convicção de que entregar a privados as quotizações de trabalhadores e empresas para a Segurança Social contribuirá para uma melhoria na vida dos trabalhadores no momento da sua aposentação, ou a intenção para privatizar se deve a interesses pessoais ou de amigos? Se há falta de melhor gestão, algo que ainda não foi comprovado, por que não se nomeiam gestores à altura? Por que será que o privado é que é bom e o público não pode ser?
Como é que o Executivo deve responder aos anseios do povo? Com promessas repetidas até à exaustão e depois esquecidas nas gavetas das secretárias dos governantes, fazendo o povo animar-se, esperançar-se em dias vindouros melhores? Não. Se não for possível concretizar algo, ao menos que se assuma com honestidade, com verdade, sem assacar culpas a terceiros. Será legítima a defesa quando não é atingido um objectivo, sem o assumir claramente, refugiando-se na estatística que mostra alguma melhoria? Não. Como pode um Governo merecer a credibilidade que deve ter na sua actividade se não pratica a fidelidade para com a população? Não nos conformemos com respostas incompletas ou vazias. Fugir disto e daquilo não é um bom princípio. É verdade que falar do que se quer é permitido numa democracia, como defende Montenegro, mas um Governo que não fala de tudo aquilo de que devia falar condiciona a qualidade dessa mesma democracia. Infelizmente, esta tem estado em perda. Pode ser muito democrático dizer-se que “as gavetas estavam cheias” de problemas como alegou o primeiro ministro e presidente social democrata, mas isso não resolve nada e pode nem ser verdade. E o mesmo não tem feito nenhuma “tentativa de branqueamento” e tem vindo “a ouvir o país” que precisa de respostas? Não nos conformemos com retórica sobre o estado do país.