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“Não ser de si nem dos seus...”

 

 

Acontece, por esta altura, a Missa Nova dos três jovens que, no passado dia 19 de julho, foram ordenados presbíteros. Além disso, são diversos os sacerdotes que celebraram as suas bodas. Entre eles, o destaque vai para o Padre Tobias, Pároco de Pedralva (Braga), que, no passado dia 6, completou 100 anos de vida, dos quais 75 ao serviço da referida comunidade.

Ao pensar em tudo isto, veio-me à mente uma quadra, tradicionalmente atribuída a António Correia de Oliveira, que consta de muitas pagelas de Ordenação e Missa Nova:

Ai, sabei, amigos meus, 

ser padre é isto somente: 

não de si nem dos seus, 

para ser de toda a gente.

Pode, contudo, alguém deixar de ser de si e dos seus? Nós sabemos que a identidade nasce do nome, da casa, da família, da terra onde crescemos. É aí que o coração aprende as primeiras palavras da vida e do amor. Não ser de si é talvez a mais difícil das vocações, porque todos aprendemos a defender o que é nosso: o tempo, as escolhas, os afetos, os sonhos. Deus, contudo, escreve de outro modo: não apaga os sonhos, alarga-os; não destrói os afetos, multiplica-os; não elimina a casa, abre-lhe as portas para nela caberem os desconhecidos.

Não ser dos seus é também um desafio difícil. Há um momento em que a mãe percebe que o filho por ela embalado pertence agora a muitos; o pai descobre que os braços que ensinou a trabalhar levantam um cálice para todo um povo; os irmãos constatam que aquele que cresceu à mesma mesa terá agora de sentar-se em muitas mesas diferentes, onde haverá alegrias para celebrar, trabalhos para executar e tristezas para partilhar.

Não ser dos seus não significa esquecer a família, abandonar os amigos ou apagar as raízes. Pelo contrário, significa amá-los tanto que eles deixam de ser a fronteira. É um amor que não destrói as primeiras pertenças, alarga-as. O coração aprende que o amor verdadeiro nunca é propriedade, mas fecundidade. Quem ama de verdade nunca fecha portas, abre-as. Quando assim acontece, a família do padre perde um exclusivo para receber uma bênção maior, porque, continuando a amar os seus, o sacerdote já não lhes dedica um amor exclusivo. 

O coração sacerdotal está fadado à largura: tem de aprender o nome de crianças que nunca viu nascer e de chorar por idosos que nunca lhe deram colo; será objeto da oração de pessoas cuja língua talvez nem compreenda; haverá casas onde entrará como estranho e sairá como irmão; haverá noites em que o telefone tocará quando todos dormem e ele partirá sem perguntar se é cómodo, porque o Evangelho não mede distâncias nem regateia esforços.

O padre pertence sempre a alguém que dele precisa, torna-se um homem de portas abertas e, por isso, ninguém lhe peça uma vida tranquila. Cristo nunca prometeu tranquilidade aos que chamou para O seguir de perto. Prometeu-lhes, isso sim, um coração grande para carregar alegrias alheias como se fossem suas e sentimentos estranhos como se fossem familiares. É uma estranha matemática: quanto menos vive para si, mais plenamente vive; quanto mais se entrega, mais inteiro se torna; quanto menos possui, mais rico descobre ser.

O sacerdote não é de si nem dos seus e passa a ser de toda a gente, pertencendo a cada pessoa como se fosse única, tendo tempo para quem interrompe, escutando sem relógio, repartindo esperança como quem reparte pão. Descobre que cada telefonema, cada pedido, cada porta que se abre pode ser um sacramento inesperado da presença de Deus. No padre, a mãe que chora encontra um filho, a criança descobre um pai, o doente encontra uma presença, o pecador recebe em abraço, o pobre depara-se com alguém que conhece o seu nome, o idoso deixa de estar sozinho, os que celebram ou sofrem encontram um companheiro de caminho. Esta disponibilidade tem um preço, porque quem é de toda a gente raramente dispõe de si mesmo, a agenda nunca lhe pertence completamente, o descanso pode ser interrompido, as lágrimas alheias tornam-se também suas, as alegrias dos outros tornam-se festa própria.

Quem entra no ministério sacerdotal não perde uma família, recebe famílias incontáveis; não abandona uma terra, passa a reconhecer como pátria qualquer lugar onde alguém espera uma palavra de esperança; não deixa de ter um nome, aprende a responder por muitos: padre”, pastor, irmão, confessor, amigo. E talvez seja esta a mais bela definição de um sacerdote: alguém cuja vida deixou de ter o centro em si mesma para gravitar em torno de Cristo, como a lua vive da luz do sol e a espiga da generosidade da terra. 

No dia da Missa Nova, o novo padre não celebra apenas a primeira Eucaristia, celebra também a primeira grande despedida. Despede-se de uma forma de possuir a própria vida e compreende que já não pertence a si mesmo. E, enquanto o incenso sobe e o pão se torna Corpo, uma oração silenciosa nasce do coração de todos: que nunca lhe falte a coragem de se esquecer de si para se lembrar de todos; que nunca se canse de ser casa para quem a não tem, caminho para quem se perdeu, mesa para quem tem fome e presença para quem vive só. 

Não ser de si nem dos seus não é uma condenação à perda, mas o caminho para uma pertença maior. É deixar que o coração tenha as dimensões do Evangelho. Só quem aceita viver assim pode, verdadeiramente, tornar-se de toda a gente. E, sendo de todos, descobrirá, com humilde espanto, que pertence inteiramente a Cristo.

P. João Alberto Correia

P. João Alberto Correia

10 agosto 2026