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Escarunhar abusivo… de tudo a todos

 

 

Está cada vez mais difícil quem-quer-que-seja escapar ao escrutínio – até desrespeitoso – da mais básica privacidade. Usando um termo regional do norte do nosso país – escarunhar – vamos esmiuçar possíveis situações onde tudo se escarafuncha sem pejo nem respeito: nada nem ninguém quase está a salvo, hoje como no futuro.

1. Expliquemos o termo ‘escarunhar’ para depois tentarmos encontrar o seu significado mais abrangente em evolução semântica. Escarunhar é um termo popular e regional – frequentemente utilizado em Trás-os-Montes e outras áreas rurais de Portugal – que significa debulhar ou tirar os grãos das espigas de milho à mão, isto é, tirar os grãos (sobretudo) de milho do carunho ou carunha, como sendo o carroço onde estão os grãos de milho. No entanto, escarunhar pode adquirir outros significados com palavras quase sinónimas: desbulhar, escarafunchar (procurar, remexer, limpar) ou mesmo escarnar (analisar, esmiuçar)…sempre num sentido mais ou menos de distinguir à força pequenas peças que compõem o puzzle onde se encaixam. 

2. Como se aplica ou se exprime este escarunhar na nossa vida pública (política, religiosa, social ou económica)? Será que haverá, por muito tempo, quem se preste a colocarem-lhe a vida em devassa, ao escarunharem-lhe os mais pequenos pormenores? Como será o futuro de quem esteja ao serviço, se sempre corre o risco, de saber-se algo que era do âmbito pessoal ou familiar? Quem tem a certeza que não é usado por outros para que seja escarunhada a vida, mesmo que se faça (ou pretenda ser) seu amigo? Nessa manipulação a que estamos sujeitos permanentemente todos estamos suscetíveis de ser envolvidos nesta onda de vulgarização de cada um…

3. Quantos programas – televisivos, de redes sociais, publicações de imprensa, debates e espaços de má-língua – encontramos para escarunhar a vida dos outros: horas e horas em questões entre o ridículo e a intromissão na vida alheia, como se uns tivessem direito de opinar – sem licença nem agrado – sobre aquilo que se refere a outros e que não lhes diz respeito. 
Efetivamente vivemos num tempo em que a coscuvilhice, a calhandrice, a cabaneirice e todas outras formas de se intrometer na vida dos outros deixou de se reduzir à taberna ou tasca, passando pelo lavadouro público ou as conversas de maledicência deixaram de estar no reduto local para ganhar amplitude, dimensão e significado. Aquilo que antes era dito ‘ao pé-da-orelha’ e ‘à-boca-pequena’ – para usar termos populares – agora ganha outra dimensão, tanto na bisbilhotice, quanto no escândalo em divulgação… Há órgãos de comunicação que vivem e sobrevivem com esta perigosa exaltação e exploração do medo.

4. Será isto moralmente aceitável? Será eticamente tolerável falar dos outros sem respeito nem consideração? Socialmente não estaremos a construir uma sociedade baseada no medo e na difamação? Estruturalmente não será repugnável acreditar mais no que se diz de mal de alguém (conhecido ou não) do que nas qualidades que poderá ter, de verdade? Nacionalmente parece que vivemos sob esta onda sombria que envolve todos sem distinção.

5. Urge, por isso, saber este ambiente em que nos movemos e de estar preparado para a possibilidade de um dia – mais cedo do que tarde – sermos envolvidos, direta ou indiretamente, nesta chafurdice nacional ou mais próxima. Como sói dizer: nas costas dos outros vemos os nossos defeitos. Então, sabendo como os outros são tratados – quase de forma desumana ou pelo menos a roçar o aviltante – torna-se importante ver o que fazem aos outros – conhecidos ou desconhecidos – e usar as armas mais adequadas para nos defendermos, prevenirmos ou, se for necessário, contradizermos.

6. Quantas vidas foram trucidadas pela capacidade de terem sido esventradas pela difamação. Quantas situações vimos que, sob a alçada da mentira, deixaram marcas irreversíveis em tantas pessoas acusadas, de forma escandalosa e posteriormente inocentadas de modo silencioso. Quantas vivências atribuladas pela falta de respeito das pessoas umas para com as outras e que se tornaram julgadas e condenadas sem justiça nem reposição da verdade…
 

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

10 agosto 2026