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A Crise que ninguém vê: a erosão da Confiança

 

 

Vivemos uma crise que talvez seja mais profunda do que muitas das que ocupam diariamente o espaço público. Não é, em primeiro lugar, económica. Não é exclusivamente política. É uma crise de confiança. Desconfiamos das instituições, dos especialistas, das universidades, dos media e, cada vez mais, da própria ciência. O paradoxo é que esta desconfiança surge precisamente quando temos acesso a mais informação do que alguma vez tivemos. Nunca foi tão fácil consultar um estudo científico, ouvir um especialista, comparar dados ou conhecer acontecimentos em tempo real. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil distinguir conhecimento de opinião, evidência de convicção e informação de narrativa. A questão é séria porque a confiança é uma infraestrutura invisível das sociedades. Uma decisão política exige confiança nas instituições que a executam. Uma recomendação especializada exige confiança no conhecimento que a sustenta. Uma universidade depende da confiança na sua capacidade de produzir conhecimento. A ciência depende da confiança num método que admite o erro, permite a contestação e corrige conclusões. E os media dependem da confiança de que alguém verifica, seleciona e contextualiza aquilo que acontece. Quando essa confiança se rompe, surge um fenómeno perigoso: todas as opiniões começam a parecer equivalentes. O especialista e o improvisador aparecem lado a lado. Um estudo científico pode competir, na mesma plataforma, com uma afirmação sem evidência. Uma investigação jornalística pode ser colocada no mesmo plano que um rumor. Um consenso científico pode ser apresentado como apenas “mais uma opinião”. A revolução da informação produziu aqui o seu paradoxo. Democratizou o acesso ao conhecimento, mas também democratizou a autoridade. Qualquer pessoa pode falar como especialista, publicar como jornalista, interpretar como cientista e comentar como analista. O problema não é existirem mais vozes. É termos enfraquecido os mecanismos que nos permitem avaliar a sua credibilidade. E esses mecanismos são essenciais precisamente porque nenhuma instituição é infalível. A confiança democrática nunca deveria significar submissão, mas reconhecimento de competências, métodos e responsabilidades. Isto não significa recuperar uma confiança cega nas instituições. Instituições devem ser escrutinadas. Especialistas podem errar. Universidades podem falhar. Media podem manipular. A ciência pode corrigir-se. A dúvida é saudável e o contraditório é indispensável. O problema começa quando deixamos de distinguir dúvida fundamentada de desconfiança sistemática; crítica de rejeição; erro corrigível de falsidade deliberada. Quando tudo é suspeito, nada é verdadeiramente escrutinado. E quando a evidência perde autoridade, a decisão passa a depender cada vez mais da identidade de quem fala, da emoção que provoca ou da narrativa que confirma aquilo em que já acreditávamos. Talvez este seja o maior risco da crise da confiança: não existirem cidadãos desconfiados, mas uma sociedade incapaz de estabelecer referências comuns sobre o que pode ser considerado conhecimento. Cada grupo escolhe os seus especialistas, os seus media e as suas evidências. A sociedade continua informada, mas deixa progressivamente de estar epistemicamente ligada. Por isso, talvez já não devamos perguntar apenas em quem confiar. Devemos perguntar se ainda sabemos por que razão devemos confiar. Recuperar a confiança não significa pedir às pessoas que acreditem novamente. Significa reconstruir os mecanismos que tornam a confiança racionalmente possível: transparência, competência, independência, escrutínio, explicação, responsabilidade e capacidade de reconhecer e corrigir erros. Uma sociedade madura não é aquela que confia em tudo. É aquela que sabe em que confiar, por que confiar e quando deixar de confiar. No fundo, a batalha pela confiança é também uma batalha pelo conhecimento. E talvez seja essa a crise que ainda estamos apenas a começar a compreender.

Paulo Sousa

Paulo Sousa

9 agosto 2026