Este mito advém de o Protestantismo crer que a “Grande Ceia” não foi – e a sua celebração não dever ser – um ato sacrificial (sendo que a alusão a que a Grande Igreja assim cogitou tal Ceia, até a uma sua eventual paganização sucedida no séc. IV, se deve, de novo, a uma suposta corrupção, a partir de Constantino I, da mensagem de Jesus e do Cristianismo Primitivo).
Em primeiro lugar, impõe admitir-se que os relatos da Ceia no Cenáculo não utilizam palavras como “sacrifício” ou “oferta”. Isto é inegável, do mesmo modo que o é acerca de haver, nesses relatos, imensas coordenadas simbólicas associadas ao feito por Jesus. Todavia, isso não é tudo. Tais mesmíssimos relatos estão embebidos de um ambiente pascal-sacrificial e até algumas palavras são claras quanto a tal contexto, tais como “oferta”, “derramado” ou “em memória” (que remete para sacrifícios feitos ante Deus, como se vê em Nm. 10, 10).
Ou seja: já no horizonte dos relatos evangélicos é impróprio separar-se a “Ceia” do “Jardim das Oliveiras” e da “Cruz”, pois estes são três momentos (não só cronológicos) de uma mesmíssima realidade genuína e centralmente sacrificial, isto é, dotada da capacidade de tornar o que não é amor em amor e o que é um amor menor num amor maior.
Com o evoluir da reflexão teológica acerca do apontado no parágrafo anterior, os cristãos – que começavam a organizar as comunidades e a explicar a sua fé aos judeus e aos pagãos (sendo que o conceito de “sacrifício” era muito relevante para ambos) – vincaram, cada vez mais, que a Eucaristia (termo tido como sinónimo de “Última Ceia” desde meados do primeiro Século da Era Cristã, como se vê no número 9 da “Didaché”) fora, e era, um sacrifício veraz.
Não se trata, porém, de um “novo” sacrificar de Jesus pela Igreja, mas do “mesmíssimo” Autossacrifício realizado por Jesus (atuante no sacerdote que age, não em seu nome, mas como um instrumento vivo e visível d’Aquele) e ao qual a Igreja se associa. Não, portanto, uma “repetição”, mas uma “participação” no sacrifício único, pleno e definitivo de Cristo.
Do descrito no penúltimo parágrafo, há provas textuais extra-bíblicas de linguagem sacrificial reportada à Eucaristia no fim do séc. I, por exemplo, no número 44 da “Carta da Comunidade de Roma à Comunidade de Corinto”. O mesmo se pode constatar a meados do séc. II quando, nos números 41 e 117 da obra “Diálogo com o Judeu Trifão”, de Justino de Siquém, este futuro mártir associa as oferendas eucarísticas à Autodoação plena de Jesus já na “Grande Ceia”.
No séc. III encontramos esta ideia de forma mais firme, como se pode ver no n.º 14 da carta 63 de Cipriano de Cartago, que refere: «no próprio sacramento da Paixão de Nosso Senhor (…) o sacerdote exerce verdadeiramente o ministério de Cristo quando faz o mesmo que Cristo fez; e é assim que oferece, em Igreja, um sacrifício verdadeiro e completo a Deus Pai».
Que o paganismo praticasse sacrifícios, isso é inquestionável, mas afirmar-se que a leitura sacrificial da “Grande Ceia” é fruto de uma importação, para a Igreja do Século IV, de entendimentos e rituais pagãos, é totalmente inverosímil. Deveras, tudo aponta para que Jesus, dentro de um horizonte judio, desejou dar um cunho sacrificial àquela “Ceia” eucarística (“antecipação” real dos dois outros “momentos” supraditos) e que isso tenha sido sublinhado por um gradual desenvolvimento interior à Igreja já bem patente no séc. III.