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Afinal, somos “campeões”

 

 



 

No sentido de ultrapassar o desaire sofrido pela Seleção portuguesa no último Campeonato do Mundo de Futebol, vamo-nos socorrendo das desculpas com a fraca prestação do selecionador, das suas táticas e do modesto desempenho dos atletas lusos.

Já o mesmo não se pode dizer de outra modalidade nacional. Pois a ela se deve, segundo o JN de 12JUL26, a conquista do Mundial de Pirotecnia que se realizou no Vietnam. Tendo a equipa portuguesa, representada por uma empresa de Felgueiras que já havia vencido o Troféu Atlântico, na Madeira, conquistado o do Festival Internacional de Fogo de Artifício de Da Nang, graças ao seu “Piromusical”, uma mistura pirotécnica com música

Mas não é só nos foguetes que somos bons. Também na canoagem o temos sido, graça às douradas remadas do nosso campeão, Fernando Pimenta. O limiano que nos tem dado enormes alegrias e espalhado prestígio a nível internacional. De igual modo, temos tido boas prestações no Atletismo, Futsal, Andebol, Basquetebol, Oquei Patins, Rugby e não só. A que se lhe junta a notória evolução e empenho no que ao desporto feminino diz respeito.

Pois bem, se o país é capaz de se organizar para vencer desafios difíceis a nível desportivo, por que razão não faz o mesmo nos serviços públicos? Já que é tal o estado da nossa Justiça que levou, aqui há uns tempos o Juiz Jubilado, Euclides Dâmaso, a afirmar o seguinte: – “infelizmente a Justiça portuguesa não destoa do quadro de desconcerto, burocratização, falta de planeamento estratégico, moleza e faz de conta em que vegetam a maioria das instituições nacionais”. Acrescentando; – “a lei que é rápida e inexorável para com os pobres, não o é quando se trata de pessoas de elevada condição”. 

Com efeito, é o mesmo JN quem em manchete, no mesmo dia, nos dava conta de que a nossa Justiça é imbatível no que toca à libertação de arguidos por excesso de prisão preventiva. Daí, poder eleger-se o país como campeão da Justiça por fazer, já que em 5 anos se multiplicaram os casos de atraso em ser produzida acusação e a respetiva sentença. E porquê esta situação? Por, tal como era dito, se dever à falta de meios. O que não só faz emperrar a Máquina Judicial, como permite que algumas centenas de supostos criminosos fiquem por julgar. 

Desta feita, parte desses cidadãos (fora da preventiva) vão desaparecendo do radar dos tribunais sem qualquer culpa formada, nem penalização efetiva. Aliás, alguns deles que haviam sido detidos por crimes violentos, tráfico internacional de droga e de outro foro, foram libertados não só por força da lei (uma vez que ela não permite mantê-los cativos por mais tempo), como pela estratégia dos recursos apresentados pela defesa. Tendo alguns deles viajado para o estrangeiro, sem regresso anunciado.

Perante isto constato que, afinal, também somos campeões do imobilismo e do deixa estar tudo como está. E embora o pessoal reclame por melhor e eficiente Justiça vai demonstrando – como se tem visto – ser avesso às mudanças. E caso haja algum Governo disposto a fazer reformas, logo a oposição se apressa a contestá-las. 

Pelo que, assim sendo, não adianta virem dizer que a democracia está em perigo, já que quem está a falhar são os agentes políticos do sistema que dela se servem para, manipulando a opinião pública, se verem livres da suspeição de corrupção e do veredito de um Juiz. 

Valha-nos, ao menos, o “foguetório” nacional. Não o da propaganda à tão propalada reforma do Estado e mudança no status quo, pouco democrático, desta miserável República, mas o dos campeões da verdadeira pirotecnia. Bem como os de outras modalidades que nos deixam orgulhosos e mais conhecidos no mundo. 

É que tanto os Governos do PSD, como do PS, andam há mais de 50 anos a prometer uma Justiça em tempo útil e a todos acessível. Só que o empolgado “desta vez é que vai ser”, tem sido comparável a foguetes que sobem no ar, dão nas vistas, estoiram e largam uma fumarada que acaba por obscurecer tais propósitos. 



 

Narciso Mendes

Narciso Mendes

3 agosto 2026