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Porto e Área Metropolitana: carisma, memória e futuro

O Porto é, antes de tudo, um lugar seguro e sentido. Seguro na identidade, na palavra firme, no caráter resistente das suas gentes; sentido na forma íntima como se oferece a quem o vive. Há no Porto uma força carismática que não se esgota na paisagem nem na história, mas que se renova em cada geração, na combinação singular entre tradição e ousadia.

A própria origem do nome — Portucale — revela essa vocação histórica. Resultante da conjugação de portus (porto) e Cale, nome ligado aos povos que habitavam este Noroeste Peninsular, remete-nos para um ponto de encontro de rotas, culturas e gentes. Do antigo Portus Cale nasceu uma cidade que viria a dar nome a um País. E desse núcleo inicial cresceram séculos de afirmação que levariam, já em Oitocentos, a um papel decisivo na vitória da causa liberal — momento em que o Porto se torna bastião da liberdade e da modernidade, abrindo caminho a uma sociedade mais aberta e progressista.

Mas o Porto não nasceu isoladamente: emergiu de uma rede de territórios que o antecedem e sustentam. Dos castros da cultura castreja, como Alvarelhos ou Terroso, aos vestígios da presença romana e da exploração mineira antiga em Valongo, passando pelo legado da Reconquista nas Terras de Santa Maria, o espaço envolvente testemunha uma notável continuidade civilizacional ao longo de mais de dois milénios.

A presença dos cruzados e a relevância do Mosteiro de Leça do Balio evocam tempos de espiritualidade e de articulação com a Europa medieval, reforçando o papel do Porto como porta de entrada e de partida, numa dinâmica que se refletiu igualmente nos Caminhos de Santiago.

Na contemporaneidade, o Porto assume um papel de liderança da sua Área Metropolitana. Contudo, esta entidade intermunicipal enfrenta desafios relevantes, nomeadamente na construção de uma maior coerência territorial e estratégica. Apesar disso, a força centrípeta da grande cidade continua a mobilizar os municípios, criando dinâmicas de complementaridade. De facto, há mais do que um Porto. Organizam-se numa gradação anelar de arcos urbanos parcialmente sobrepostos: o município, delimitado pela Circunvalação e núcleo central de uma malha urbana de estrutura radial; a frente atlântica, que com Gaia e Matosinhos abraça o oceano e um futuro que também ali se joga; o Grande Porto, que já foi sub-região NUTS III, integrando ainda os outros concelhos contíguos — Maia, Valongo, Gondomar — bem como Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Trofa, Santo Tirso, Paredes e Espinho; e os restantes anéis metropolitanos, com municípios de forte matriz industrial (Oliveira de Azeméis, São João da Madeira e Feira) que desempenham um papel decisivo na economia exportadora do Norte e do País, bem como concelhos marcados por uma forte ruralidade (Arouca e Vale de Cambra).

Há um Porto at large, com diferentes dimensões, identidades e expressões territoriais, cujo protagonismo histórico deve traduzir-se, também, numareforçada relevância funcional. Este território quer e deve afirmar-se como aprincipal plataforma logística euro-atlântica do Noroeste Peninsular. O porto do mar e o fluvial que deu nome à cidade são uma certeza. O aeroporto precisa de continuar a crescer, sobretudo nas ligações intercontinentais. E na ferrovia,permanece a expectativa de que a alta velocidade garanta uma nova centralidade ao território através de ligações rápidas para sul, até Lisboa, e para norte, até Vigo e à restante rede espanhola. A concretização desta visão de hub de mobilidade e logística exige a resolução dos asfixiantes congestionamentos rodoviários nos principais acessos e eixos deatravessamento do Porto, bem como da elevada dependência do automóvel em muitos municípios periféricos.

Há um Porto de múltiplos “portos”: porto de vinho e sabores que levam o Douro ao mundo; porto de cultura e ciência, onde universidades, museus e criadores alimentam pensamento e inovação; porto de economia e indústria, herdeiro de uma tradição empreendedora; porto de emoções que o desporto amplifica; e, acima de tudo, porto de esperança e paixões, onde se projetam sonhos coletivos. Classificado como Património Mundial pela UNESCO, o seu centro histórico é símbolo dessa singularidade universal. Singularidade que os nativos alimentam num mosaico de identidades locais e pertenças partilhadas, que os portugueses admiram com uma inveja benigna e que os turistas fruem esaboreiam aprendendo a gostar.

Mais amplamente, o Porto é líder de um Norte policêntrico. Uma Região que devia assumir-se como uma armada: um conjunto de territórios distintos, mas solidários, que se protegem mutuamente, tanto na defesa como no enfrentamento dos desafios globais. Neste cenário, o Porto seria o navio-almirante — o flagship — não para dominar, mas para orientar, inspirar e agregar. Numa armada assim, todos teriam o seu papel e todos ganhariam em fazer parte.

No seu percurso, a cidade encontra nas suas referências culturais uma fonte permanente de identidade e reinvenção: Manuel António Pina e a delicadeza crítica da palavra; Manoel de Oliveira e o olhar universal; Siza Vieira e a arquitetura que dialoga com o lugar; Agustina Bessa-Luís e a profundidade das raízes; Eugénio de Andrade e a luminosidade da escrita; Daniel Faria e a dimensão espiritual; Ana Luísa Amaral e a poesia como liberdade; Armanda Passos e a força expressiva do feminino na pintura contemporânea; e Rui Veloso e Rui Reininho, expressões distintas da irreverência criativa de uma cidade que nunca deixou de se superar.

Nesta multiplicidade, o Porto — qualquer que seja a dimensão considerada —continua, assim, a ser locus de chegada e de partida, acolhendo e desafiando, mas nunca deixando de se cumprir no tempo.

Portugal precisa de um Norte forte. O Norte precisa de um Porto forte. Mas precisa sobretudo de um Porto confiável, capaz de liderar com visão, inclusão e sentido de comunidade, respeitando as singularidades e as legítimas ambições de todos os que também constroem esta Região. Um Porto cuja centralidade seja percebida como um ativo coletivo, e não como um fator de drenagem, e cuja liderança inspire os restantes territórios a reconhecer valor e vantagem em fazer parte desta armada comum.

António M. Cunha

António M. Cunha

22 julho 2026