Há um filósofo brasileiro, Ariano Suassuna, acérrimo defensor da língua portuguesa, a quem acho imensa graça. Diz ele que o ruim de passar é “bom” de contar e que o bom de passar é “ruim” de contar”. De facto, se eu for falar a alguém do bom que encontrei ao longo da minha vida, por educação, faz de conta que ouve. Mas se o assunto for o de algum desaire que tenha ocorrido comigo, com um familiar ou amigo, aí a pessoa não só fica de olhos arregalados e orelhas guinchas, como quer logo saber, de fio a pavio, todos os pormenores.
Algo idêntico se verifica com a discriminação que alguns dos média lusos fazem das narrativas da soldadesca que, como eu, cumpriu o Serviço Militar Obrigatório. Já que se for algum ex-tropa que tenha ido à guerra colonial e, de preferência, sofrido na pele as suas agruras não só é logo entrevistado, como quase o obrigam a dizer aquilo que ele não quer. Tal é a ânsia de pormenores exclusivos dos horrores que lá viveram. Daí, o apagão que se verifica sobre a vivências do pessoal que serviu nas instituições militares da Metrópole, como foi o meu caso, de1969 a1972.
Não, graças a Deus não embarquei, mas estive à beira de ser mobilizado para o, então, Ultramar. E mesmo que tivesse ido, a minha arma seria uma Messa ou Olivetti de teclado nacional. Portanto, longe dos perigos do conflito. Pelo que não tendo sido nomeado, limitei-me a cumprir o meu dever na Bases Aérea de Tancos e na de S. Jacinto, em Aveiro. Se bem que só eu e outro camarada tivemos tal desígnio, porquanto o restante pessoal do curso viajou para terras africanas.
Ora, estando eu adido à Secção de Justiça da Unidade tive o privilégio de, como amanuense-escrivão, teclar vários processos relativos a casos de corrupção praticados por alguns militares graduados, devido ao uso indevido de verbas dos serviços de manutenção da Força Aérea Portuguesa (FAP). Assim como os relativos a acidentes de aviação ocorridos não só durante a instrução de pilotagem, como no conflito nas ex-colónias.
Infortúnios que se deviam, em parte, ao escasso tempo de preparação. Já que a pressão de enviar tropas para a guerra era de tal ordem que não havia tempo a perder. Daí, a falta de experiência dos pilotos das aeronaves, muitas delas oriundas da 2.ª Guerra Mundial, obsoletas e com tecnologia rudimentar. E não havia volta a dar, já que quando um avião se despenhava era morte certa para quem nele seguia. Basta consultarmos o respetivo site da FAP para termos a noção de quantos jovens não só morreram em combate, como por incúria deles próprios.
Foram vários os assuntos, abrangidos pelo Código do Processo Penal, que me passaram pelos dedos das mãos. Recordo-me de ter acompanhado, por várias vezes, dentro e fora da Unidade, o Oficial nomeado para as diligências a efetuar durante a instrução de cada processo, a fim de ser efetuada a respetiva inquirição aos intervenientes. Para isso, dispunha de uma máquina de escrever portátil, bastante antiga e algo desafinada.
Desde acidentes de viação (em que intervinham viaturas militares e civis) a suspeitos de corrupção, assaltos e falsificação de documentos, havia de tudo um pouco. Inclusive, lembro-me de ter registado as declarações de um militar e de uma menor, por esta ter sido vítima de atentado ao pudor. E, digo, não foi fácil escutar os pormenores do referido crime. Processos e Autos que, depois de concluídos, eram encapados, cozidos a fio de norte, lacrados e levados a despacho ao Comandante para posterior envio ao Estado Maior da FAP.
Com efeito, aqui fica um cheirinho da minha prestação militar obrigatória que tive de cumprir, não tendo sido pago por isso, já que o ‘excelente’ vencimento prometido (90 escudos, 0,45€) nunca recebi. Sei que não exagero se disser que o impacto deste texto, se comparado aos relacionados com a vida na frente de combate, é demasiado modesto. Dito isto, há que dar razão ao Ariano: na arte de contar historietas é sempre o ruim de passar quem leva a palma.