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Missa em latim’ – por quê e para quê? (passado-presente-futuro)

 



Tem sido, sobretudo nos meios eclesiais, um tema mais ou menos controverso: a celebração (ativa e passiva) da missa em latim, particularmente exposta pela ordenação – não autorizada pelo Papa – de quatro novos bispos da ‘Fraternidade sacerdotal São Pio X’. Será que o tema da ‘missa em latim’ se resume àquilo que foi considerado um ato cismático? Quais as possibilidades e circunstâncias para celebrar a ‘missa em latim’? A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II obstaculiza a celebração e a participação na ‘missa em latim’? Não será que este tema – ‘missa em latim’ – parece ser mais uma cortina de fumo de certos setores da Igreja católica? Será preferível tratar o assunto como discussão em aberto do que como pedra na engrenagem da vida e da presença da Igreja no mundo?

1. Desde logo a expressão missa em latim’ não deveria dividir, antes deverá proporcionar um espaço de enquadramento da diversidade para a unidade. Dado que fui formado e educado após o Concílio, fique claro que não advogo a celebração da ‘missa em latim’ como o melhor modo de celebrar a eucaristia. A minha estupefação situa-se na admiração, proposta e vivência de pessoas mais novas – padres e leigos – que não tendo vivido a ‘missa em latim’ a querem com tal sofreguidão que parece um anseio sem nexo nem explicação. Muitas vezes a defesa da ‘missa em latim’ parece querer encobrir outras pretensões, que vão das mais simples, como algum culto do quase-exotérico, até às mais complexas, como uma mentalidade (normalmente) apelidada de conservadora, tanto nas ideias quanto na visão da Igreja e no comportamento excessivamente clerical. A isto poderemos ainda acrescentar um quê de colocar-se contra a vivência da Igreja emanada do Concílio Vaticano II, querendo servir-se da ‘missa em latim’ como desculpa ou outro motivo pouco amadurecido e na luz do Espírito de Deus, hoje.

2. Passado

A fórmula de ‘missa em latim’, que alguns setores tanto ‘exaltam’ é de sabor tridentino... isto é, tem raiz no Concílio de Trento do século dezasseis (1570) e que vigorou até 1962, com a promulgação do documento ‘Sacrosantum Concilium’ por Paulo VI.
O que é, então, a ‘missa em latim’ na fórmula tridentina? As características mais visíveis da missa tridentina são o uso do latim como língua litúrgica exclusiva, assim como a posição do sacerdote, geralmente virado de costas para a assembleia (muitas vezes dita de ‘povo’). Outros elementos caraterísticos da ‘liturgia tridentina’: a comunhão (ato de comungar a hóstia/corpo de Cristo): recebida de joelhos e diretamente na boca; nas vestimentas e costumes: é habitual as mulheres utilizarem um véu na cabeça como sinal de respeito...e/ou submissão.



 

3. Presente
Vejamos situações normais em que celebrar a ‘missa em latim’ – não na configuração aduzida por muitos dos patrocinadores da liturgia tridentina – pode ser aconselhável... até porque os documentos do Concílio o preveem não excluem tal hipótese.

«A língua vernácula pode dar-se, nas missas celebradas com o povo, um lugar conveniente, sobretudo nas leituras e na «oração comum» e, segundo as diversas circunstâncias dos lugares, nas partes que pertencem ao povo (…). Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem. Se algures parecer oportuno um uso mais amplo do vernáculo na missa (…) Deve a competente autoridade eclesiástica territorial considerar com muita prudência e atenção o que, neste aspeto, das tradições e génio de cada povo, poderá oportunamente ser aceite na Liturgia» (Concílio Vaticano II, Constituição ‘Sacrosantum Concilium’ sobre a sagrada liturgia, números 54 e 22).



 

4. Futuro

De facto, o latim continua a ser a ‘língua oficial’ da Igreja e de forma particular de comunhão universal na celebração da missa. Quem não terá visto este benefício ao participar em celebrações internacionais? Perante a diversidade, o latim constitui laço de unidade entre os vários. Se soubermos procurar mais o que une do que aquilo que possa separar, a ‘missa em latim’ fará a sua função, mas sem objetivos particularistas, como temos visto em tantas circunstâncias…

António Sílvio Couto

António Sílvio Couto

20 julho 2026