A Organização Mundial da Saúde (OMS), no relatório Ethics and Governance of Artificial Intelligence for Health (2021), alerta que a inteligência artificial deve ser desenvolvida e utilizada segundo princípios éticos fundamentais, como a supervisão humana, a segurança do doente, a transparência e a responsabilização. As decisões clínicas não devem ser exclusivamente delegadas em algoritmos, por mais sofisticados que sejam. Os sistemas de IA dependem dos padrões de dados inseridos e podem reproduzir enviesamentos, omitir informação relevante ou interpretar inadequadamente situações clínicas complexas. O profissional de saúde permanece, por isso, no centro da decisão, cabendo-lhe integrar a evidência científica, a observação clínica e as circunstâncias particulares de cada doente.
Na Medicina Dentária, esta exigência assume especial relevância. O diagnóstico não resulta apenas da análise da história clínica: requer observação minuciosa da cavidade oral e estruturas anexas, testes de vitalidade pulpar, avaliação periodontal, exames radiográficos ou imagiológicos e, por vezes, procedimentos exploratórios que permitam confirmar ou excluir hipóteses. A inteligência artificial pode sugerir possibilidades diagnósticas, mas não consegue palpar tecidos, avaliar a mobilidade dentária, identificar alterações subtis da mucosa oral ou interpretar sinais cuja importância apenas se revela através da experiência clínica do médico dentista.
Existe, além disso, uma dimensão que nenhuma tecnologia conseguiu reproduzir plenamente: a relação humana. A comunicação entre médico e doente influencia o controlo da ansiedade, a confiança, a adesão terapêutica e até a perceção da dor. Muitos doentes chegam ao consultório apreensivos, receando um diagnóstico desfavorável ou um tratamento doloroso. A capacidade de escutar, esclarecer dúvidas, interpretar emoções e adaptar a comunicação a cada pessoa constitui, por si só, um ato terapêutico. A confiança construída durante a consulta reduz a ansiedade, melhora a colaboração e favorece uma decisão partilhada, informada e humanizada. Nenhum algoritmo estabelece verdadeira empatia, reconhece integralmente o sofrimento através da linguagem não verbal ou oferece o conforto que nasce da presença humana.
Importa também recordar que o acesso indiscriminado à informação pode criar uma falsa sensação de segurança. Por vezes, o doente inicia automedicação com analgésicos, anti-inflamatórios ou mesmo antibióticos, procurando aliviar sintomas que interpretou com recurso à internet ou à inteligência artificial. Contudo, a dor é um sinal biológico de alerta. Suprimi-la sem identificar a causa pode mascarar infeções odontogénicas, fraturas dentárias, necroses pulpares, doenças periodontais ou lesões potencialmente malignas da cavidade oral, atrasando o diagnóstico e comprometendo o prognóstico. Em medicina, deve tratar-se a causa, e não apenas o sintoma.
Reconhecer estas limitações não significa rejeitar a inteligência artificial. Pelo contrário, ela pode constituir uma ferramenta extraordinária de apoio ao conhecimento, à educação para a saúde e ao diagnóstico. Deve, porém, permanecer um instrumento ao serviço do médico e do doente. O verdadeiro progresso não consiste em substituir o julgamento clínico, mas em ampliar a capacidade humana de cuidar. A medicina continua a ser simultaneamente ciência e arte: ciência sustentada na evidência; arte alicerçada na experiência, na empatia e numa relação de confiança que nenhuma máquina consegue reproduzir integralmente.