1.Quem tem bolsa de pobre não pode ter boca de rico. É ditado muito antigo. Aconselha cada um a viver de harmonia com as suas possibilidades. A não dar o passo maior que a perna. Todos somos iguais mas possuímos bolsas diferentes.
2.Pobreza e miséria são realidades diversas.
A pobreza, no sentido de haver quem tenha mais e quem possua menos, é uma realidade que o quotidiano demonstra devermos saber aceitar.
A miséria, no sentido de haver pessoas sem o indispensável para viver com dignidade, é uma chaga social que urge eliminar. A existência de sem-abrigo é um escândalo. Deus fez o mundo para todos e todos devem poder dispor do necessário para nele viverem como seres humanos e filhos de Deus.
3.Ao falar da boca de rico não pretendo, de forma alguma, justificar o fausto com que certos homens de dinheiro vivem, gastando em luxo e ostentação o que, porque têm mais, deveria ser criteriosamente distribuído pelos tais que não dispõem do necessário.
O dinheiro tem uma função social. É importante saber adquiri-lo honestamente, atribuir-lhe o valor que deve ter, usá-lo de forma solidária e não egoísta.
Há ricos a quem é preciso ensinar a gastar o dinheiro.
4.Não quero também dizer que os pobres se resignem à sua situação, não tentando melhorá-la. Conformar-se com a situação atual não significa que se não procure sonhar e construir um amanhã mais risonho.
A pobreza não tem de ser uma fatalidade. Filho de pobre não tem necessariamente de ser pobre.
É da mais elementar justiça dar à pessoa pobre a oportunidade de romper o círculo vicioso da pobreza. Um dos objetivos da democratização do ensino, penso, também é esse.
É mais que legítimo que quem só tem possibilidades de andar de bicicleta a pedal procure, (com esforço, é evidente), passar a dispor de um automóvel, por modesto que seja.
5.Dando a primazia ao ser, é mais que legítimo que as pessoas se preocupem com o ter, e que quem tem pouco procure ter mais.
Que o faça, porém, recorrendo a métodos legítimos: usando o dinheiro como meio e não como fim, pondo-o ao serviço da sua promoção integral e, sempre que possível, da prática da solidariedade. Que o ter esteja ao serviço do ser.
6.Se trago para aqui o ditado popular segundo o qual quem tem bolsa de pobre não deve ter boca de rico é tão só para denunciar o erro de estimular as pessoas a que vivam acima das suas possibilidades. É tão só para denunciar o erro de levar as pessoas a viverem num mundo ilusório. É tão só para denunciar o erro do estímulo ao endividamento, como se quem pede emprestado hoje não tivesse de pagar amanhã. É tão só para denunciar o erro de se criarem necessidades artificiais. É tão só para denunciar o erro de se apresentar às pessoas um mundo cor de rosa onde tudo são facilidades.
7.Somos um País com os recursos que temos. É certo que poderíamos ter mais se quiséssemos e soubéssemos produzir mais e melhor, mas isso é outra questão.
O importante é sabermos viver de harmonia com o que possuímos. Não querermos ter a veleidade de copiar o estilo de vida dos países mais ricos. Que, tendo em conta o limitado dos nossos recursos, não andemos a fazer projetos megalómanos, gastando em coisas que podem esperar os dinheiros necessários para resolver problemas urgentes.
Já um dia escrevi que quem não tem camisa logicamente não deve comprar gravata. Primeiro, que compre a camisa.
Na gestão dos dinheiros, quer privados quer públicos, há-de haver uma escala de prioridades assente numa correta escala de valores. Esta, porém, é coisa que nem sempre existe. Coloca-se o culto da imagem acima do culto da realidade. O que importa é dar a ideia de que podemos ombrear com os grandes. E em muitas coisas não podemos.