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A culpa, o cansaço e a justiça mediática

 


 

Vivemos num tempo que já não sabe perder. A derrota deixou de ser um acontecimento para passar a ser uma acusação. Quando algo falha, raramente perguntamos primeiro o que falhou no sistema. Preferimos perguntar quem é o culpado. É mais rápido, mais emocional e, sobretudo, mais confortável.

Byung-Chul Han, ao descrever a sociedade do cansaço, fala-nos de um mundo dominado pelo desempenho, pela pressão permanente, pela obrigação de parecer bem e vencer sempre. A pausa parece fraqueza, a tristeza parece derrota, o insucesso parece culpa. Tudo tem de ser explicado, julgado e condenado no instante.

Foi isso que se viu, em pequena escala, na recente eliminação de Portugal. Perante a derrota, rapidamente se procurou um rosto: Cristiano Ronaldo. É legítimo discutir o seu papel, a sua idade, o seu lugar na seleção e o futuro da equipa. Mas é pobre reduzir uma derrota coletiva a um só jogador. Cabe sobretudo a quem não a pensou e não a antecipou.

A mesma lógica atravessa a nossa vida pública. Procuramos culpados visíveis para evitar perguntas mais profundas. Queremos uma cabeça, uma fotografia, um nome. Mas os problemas vivem em sistemas complexos, culturas institucionais, tempos processuais e expectativas públicas.

Veja-se o caso Vale e Azevedo. Para muitos portugueses ficou uma imagem difícil de compreender: uma condenação pesada, sucessivos incidentes, dificuldades de execução, recursos, pedidos de extradição, notificações e uma sensação pública de que a Justiça, mesmo quando decide, nem sempre se consegue fazer cumprir em tempo útil.

Mas importa dizê-lo com equilíbrio: não se pode medir a Justiça portuguesa por casos mediáticos. Na sua maioria, a Justiça funciona. Todos os dias há magistrados, advogados, funcionários judiciais e tantos outros profissionais a resolver litígios, a garantir direitos, a decidir conflitos, a proteger vítimas, a responsabilizar infratores e a assegurar o funcionamento possível do Estado de Direito. Essa Justiça discreta, quotidiana e muitas vezes silenciosa raramente abre telejornais. Não gera manchetes. Não produz indignação viral. Mas é ela que sustenta, na prática, a confiança mínima na vida em sociedade.

O problema é que as sociedades avaliam as instituições, muitas vezes, pelos casos que todos conhecem. E são precisamente os processos mais mediáticos, mais longos e mais difíceis de explicar que moldam a perceção pública. Um caso isolado não define o sistema, mas pode ferir gravemente a imagem que o cidadão comum tem dele.

Não está aqui em causa substituir tribunais por praças públicas, nem negar direitos de defesa, recursos ou garantias processuais. Pelo contrário: o Estado de Direito vive dessas garantias. Mas também é verdade que o Estado de Direito perde força quando a decisão chega tão tarde que já parece sombra de si própria. A Justiça não tem de ser instantânea, porque a pressa também pode ser injusta. Mas precisa de ser compreensível, eficaz e suficientemente próxima do tempo da vida.

Uma Justiça que tarda demasiado não desacredita apenas um processo concreto; cansa o cidadão. E este cansaço é perigoso, porque abre espaço à desconfiança fácil, ao populismo penal e à ideia falsa de que garantias são obstáculos e não conquistas civilizacionais.

É aqui que Byung-Chul Han se torna especialmente atual. A sociedade do desempenho exige resultados imediatos a todos: ao trabalhador, ao estudante, ao empresário, ao atleta, ao médico, ao professor. Mas depois convive mal com instituições cujo tempo é outro, mais lento, mais formal, mais cauteloso. O desafio está precisamente em conciliar garantias com eficácia, prudência com consequência.

Vem a propósito a velha frase atribuída a Henry Ford, segundo a qual o seu trabalhador mais bem pago era aquele que passava dias aparentemente sem fazer nada, até que, de tempos a tempos, lhe dava uma ideia capaz de render milhões. A frase, verdadeira ou lendária, lembra-nos algo essencial: nem tudo se mede pela agitação constante. Há valor no pensamento, na pausa, na decisão certa, na ideia que aparece no momento decisivo.

Ronaldo pode ser discutido. Vale e Azevedo pode e deve ser analisado nos termos próprios do direito. A Justiça portuguesa não pode ser julgada por casos isolados, porque seria injusto para todos os que a fazem funcionar diariamente. Mas também não pode ignorar que são esses casos, precisamente por serem públicos e simbólicos, que muitas vezes formam a opinião do país.

Carlos Vilas Boas

Carlos Vilas Boas

18 julho 2026