Quase de uma forma explosiva vemos que, hoje, uma boa parte das pessoas põe tudo (entendendo mesmo por ‘tudo’, desde o mais visível ao que devia ser resguardado) à mostra sem peias nem receios: factos da vida privada tornam-se conhecidos, mostrados e quase-exibidos. Será que o recato não tem lugar nem espaço no léxico e no comportamento das pessoas? Será que o pudor nada significa ou ter-se-á perdido? Como poderemos conciliar o mistério (algo intrínseco à pessoa) com o mais divulgado e de exposição aos outros?
1. Programas televisivos ou outros afins têm ajudado a criar este ambiente de amostragem da vida íntima das pessoas. Anónimos que passam a ser conhecidos, por vezes pelas piores razões ou em razão daquilo que, em certos conceitos, seria dispensável. Com que facilidade emergem figurinhas de baixo relevo e que andam nas bocas do mundo pelo ridículo espetáculo que ostentam, sem vergonha nem pejo. Em certas circunstâncias é maior o desconforto de quem vê, lê ou se fica a saber do que a falta de recato por parte de quem assim é amostrado.
2. Talvez possa ser útil explicar e/ou descrever o que se entende por ‘recato’ e até por ‘pudor’. Embora não sejam termos dicotómicos podem apresentar versões diferentes da mesma pessoa: recato mais no sentido exterior e pudor acentuando a dimensão interior.
Vejamos definições-descritivas de um e outro dos termos:
* Recato (segundo ‘Michaelis – dicionário brasileiro da língua portuguesa’) – cuidado que se toma para evitar perigos ou erros; cautela, precaução, resguardo; probidade e retidão de conduta; honestidade, modéstia, pudor; lugar oculto ou retirado que favorece o recolhimento; recanto, resguardo; aquilo que não é revelado ou que não se deve revelar aos outros; mistério, segredo.
* Pudor (segundo o Catecismo da Igreja católica) – «O pudor preserva a intimidade da pessoa. Designa a recusa de mostrar o que deve ficar oculto. Ordena-se à castidade e comprova-lhe a delicadeza. Orienta os olhares e as atitudes em conformidade com a dignidade das pessoas e com a união que existe entre elas… O pudor protege o mistério da pessoa e do seu amor. (…) O pudor é modéstia. Inspira a escolha do vestuário, mantém o silêncio ou o recato onde se adivinha o perigo duma curiosidade malsã. O pudor é discrição… O pudor inspira um modo de viver que permite resistir às solicitações da moda e à pressão das ideologias dominantes» (n.os 2521-2523).
3. Pelo que podemos perceber das ‘definições’ destes dois termos, eles como que se entrecruzam, embora devamos refletir sobre as implicações de cada uma destas vivências. De fato, o recato tem vindo a ser ofendido pela forma quase-provocatória como tantas pessoas se apresentam na vida, tanto pública como privada: a exibição de coisas (carros, roupas de marca, artefactos de luxo e tantos outros sinais exteriores de riqueza) e a ostentação em situações de vida e mesmo alguma insensibilidade para com os outros. Por seu turno, o pudor deixou de ser virtude de respeito das pessoas por si mesmas para ser rasgado pelo desrespeito pelo seu ‘mistério’: em certos programas televisivos vemos a vida de tantos ‘famosos’ a ser dissecada, como se fosse algo descartável; certos abusos - mesmo em situações religiosas - para com a ‘proteção de dados’ onde aparecem situações que exigem maior recato e sem exibição tendo por palco o espaço da igreja; depois de alguma vulgarização de vestimentas da moda (feminina e masculina) pode-se perceber que muitas pessoas já nem por si mesmas têm respeito - antes de (pretensamente) mostrar seria preferível encobrir; nota-se uma boa dose de bom senso entre aquilo que se é e quanto se possa pretender mostrar, sabe-se lá a que custo e com que consequências, sem advertir as verdadeiras causas.
4. Recato e pudor deveriam fazer parte do programa educativo de tantas das nossas instituições - famílias, escolas, igrejas, coletividades - e certamente teríamos cidadãos mais respeitosos dos outros porque se respeitavam a si mesmos, já.