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O Cristianismo não teve eco na corte Imperial Romana até Constantino I

O âmbito de onde surge este mito é-me inteligível, mas assaz bizarro: em resposta a quem insinua que o Cristianismo já era marcado pelo poder Romano no século III, tendeu-se a dizer que isso era falso pois há ausência de provas do influxo dessa fé na Corte Imperial Romana.

Por mais que tentar defender a verdade mediante uma mentira de fácil entendimento seja o mais fácil do ponto de vista intelectual, nunca se o deve fazer, não menos porque quando se opta por assim agir se está imediatamente a manifestar uma falência da posição que se quer veicular. Além do mais, a verdade nunca nos deve embaraçar, mas se isso ocorrer, incumbe-nos analisar a nossa consciência individual e coletiva.

Entrando agora no mito enunciado, já vimos, por exemplo, que o Imperador Filipe o Árabe (governador entre 244 e 249) terá sido certamente cristão. Mas já no século II houve, não só escravos cristãos que executavam cargos administrativos na corte romana, como também uma decisiva ação de mulheres cristãs junto dos círculos governativos (refira-se o caso de Márcia que operou, nem sempre de um modo cristão, em ligação com o bispo Vítor de Roma).

no século III, diversos cristãos trabalharam na casa imperial quando Sétimo Severo era o Imperador, mas mais relevante foi a presenta epistolar e presencial de Orígenes de Alexandria junto de Júlia Mamea, mãe do Imperador Alexandre Severo (governante de 222 a 235). Orígenes expôs demoradamente o essencial da fé cristã à mesma, revelando, segundo a minha apreciação, que se a mesma não foi publicamente cristã, tê-lo-á sido, com toda a probabilidade, de modo discreto.

É na linha do que expus que se estima que tenha sido pela influência da fé cristã da sua mãe que Alexandre Severo, ele mesmo alguém muito próximo do Cristianismo, inscreveu no seu palácio imperial em Roma a “Regra de Ouro” apresentada por Jesus: «Tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós» (nota: ao contrário do dito em muitas instâncias e fontes respeitáveis, que estão ao serviço da formação cristã, esta suma espiritual, na sua aplicação universal, é um exclusivo cristão).

O mesmo Orígenes entabulou uma forte presença catequética junto de Otacília Severa, esposa do já referido Imperador Filipe o Árabe, tendo: respondido a questões teológicas colocadas pela mesma; mostrado a ela a insensatez das acusações populares e intelectuais contra o Cristianismo e os cristãos; e, enfim, encorajando-a a ter um papel ativo de apoio aos cristãos na, e a partir da, corte imperial romana.

Podemos alargar o elenco da evidência da presença de cristãos na corte de alguns Imperadores Romanos do séc. III ao que ocorreu aquando da enorme violência cometida contra os mesmos no começo da grande perseguição do Imperador Diocleciano (dirigente único do Império de 284 a 293 e em coligação com outros três governantes até 305). Entre esses cristãos contavam-se empregados domésticos, aios, eunucos, funcionários administrativos e membros da casa imperial.

Em suma: apesar de no fim do séc. III os cristãos só representarem 7% da população do Império Romano, alguns deles já estavam presentes nas mais altas esferas desse Império.

Alexandre Freire Duarte

Alexandre Freire Duarte

11 julho 2026