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A coragem de ter menos

A simplicidade tornou-se uma palavra ambígua. Pode significar sabedoria ou disfarçar privilégio; pode libertar da ansiedade de possuir ou converter-se em mais uma estética de consumo. Por isso, antes de a elogiar, convém purificá-la das caricaturas. A simplicidade não é romantização da escassez, nem convite a aceitar injustiças com resignação elegante. Quem não tem o necessário não precisa que lhe preguem o encanto do pouco; precisa de justiça, salário digno, casa, tempo e segurança. Ela só se torna valor quando nasce da liberdade de escolher melhor, não da violência de viver sem o suficiente.

Feita a distinção, compreende-se a sua força. Vivemos cercados por uma economia que não vende apenas objetos, mas desejos; não ocupa apenas casas, mas imaginações. A acumulação tornou-se uma pedagogia silenciosa: ensina-nos a desejar por comparação, a comprar por insegurança e a mostrar para existir. O problema não está nas coisas em si mesmas, mas na dependência que nelas depositamos. Há casas cheias e vidas estreitas, agendas densas e relações frágeis, ecrãs luminosos e pensamento opaco. A simplicidade começa quando deixamos de perguntar “o que posso acrescentar?” e ousamos perguntar “o que devo dispensar para voltar a habitar a minha vida?”.

Esta pergunta é mais exigente do que parece. Acrescentar é fácil, basta ceder ao impulso. Dispensar exige discernimento. Obriga a distinguir o útil do necessário, o agradável do fecundo, o urgente do prioritário. A simplicidade, neste sentido, é uma disciplina da atenção. Não diminui a vida, retira-lhe a confusão. Como numa mesa onde há espaço para trabalhar, conversar ou repartir o pão, também a existência precisa de superfícies desimpedidas. Não para ficar vazia, mas para se tornar disponível. O excesso não é apenas quantitativo, é uma forma de indisponibilidade.

Há uma dimensão espiritual e cívica nesta arte de escolher. A pessoa simples não é a que sabe menos, sente menos ou deseja menos. É a que aprendeu a não entregar a condução da vida à voracidade do imediato. Resiste à ditadura do comparável. Não transforma cada experiência em fotografia, cada conquista em troféu, cada relação em prova pública de felicidade. A simplicidade devolve pudor ao viver. Ensina que algumas coisas só conservam a sua verdade quando não são exibidas: a alegria discreta de uma conversa, a fidelidade de um cuidado repetido e o silêncio que não precisa de justificação.

Também a convivência social depende desta aprendizagem. Uma cultura que identifica valor com ostentação acaba por humilhar quem não pode acompanhar a corrida e por cansar quem tenta acompanhá-la. A simplicidade interrompe essa lógica porque desloca o prestígio do possuir para o cuidar, do impressionar para o partilhar e do excesso para a suficiência. Torna as relações menos competitivas e os espaços mais habitáveis. Uma cidade simples não é uma cidade pobre, é uma cidade onde o comum não foi devorado pela pressa.

A simplicidade é igualmente uma crítica à ideia empobrecida de progresso. Avançar não pode significar apenas produzir mais, consumir mais e acelerar mais. Há progressos que degradam a vida quando destroem o repouso, a paisagem, a memória, a intimidade ou a confiança. Uma sociedade desenvolvida não se mede apenas pela potência técnica, mas pela qualidade dos seus ritmos e pela justiça das suas prioridades. O futuro não será mais humano por ser mais veloz, sê-lo-á se for mais habitável.

Talvez a simplicidade seja, afinal, a coragem de estabelecer limites: ao ruído, ao consumo, à exposição, à dispersão e à tentação de confundir abundância com plenitude. Não se trata de viver contra o mundo, mas de viver nele sem ser absorvido por tudo o que o mundo oferece. A simplicidade não fecha a vida, abre-a ao que permanece. Faz-nos regressar ao elementar, não como recuo, mas como maturidade. Porque há uma inteligência que só começa quando deixamos de acumular e aprendemos a escolher.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Luís M. Figueiredo Rodrigues

11 julho 2026