“A leviandade é familiar da inconstância. O tédio, o aborrecimento e a inquietação, produz excitação. Sendo assim e porque somos livres, não nos deixemos condicionar”. (In Reflecções 8 -11, do autor)
É sobejamente conhecida a matança do porco em qualquer canto do país.
Nuns lados mais que outros, o acontecimento é (era) geral. No Norte, sobretudo no nosso Minho, poucos eram os agricultores ou até nalguns lares, que não tinham “a festa da matança do porco”.
Actualmente vê-se pouco esse costume, pois em qualquer esquina se vende a dita carne em promoções constantes, pelo que agora não vale a pena criá-los em casa. Compra-se nos açougues ou às resmas nos supermercados.
Verdade, foi que nos meus tempos de menino, os nossos suínos, recos ou porcos eram bem mais apetitosos e em qualquer local existia o brilhante suinicida que consumava o acto para seguir-se os “comes e bebes”: era a festa com a família e os amigos.
Hoje, esses animais têm uma alimentação bem diferente da de anos atrás. Comiam a chamada “lavadura” e todo o género de legumes, hortaliças, etc.
Quando soltos pelos campos ou quintais, as hortaliças eram facilmente destruídas pelas beiças do animal e, portanto, houve necessidade de os travar, colocando-se uns anéis de ferro ou aço nos lábios e no nariz e desse modo, muito pouco ou nada destruíam, devido à dor que os anéis lhes causavam e, portanto, limitavam-se a comer sem estragos, sem focinhar.
Porque assim era – e se calhar ainda hoje é – fiquei muito admirado quando cheguei a Moçambique para participar obrigatoriamente na guerra colonial e verifiquei que as mulheres indígenas, sobretudo as do interior, usavam também nos lábios devidamente encaixadas, umas chapas redondas em osso/marfim, tendo para isso o lábio furado à largura da patela. Por sua vez, outras furavam as orelhas e colocavam os mesmos materiais: grossos, redondos e grandes, enquanto os homens colocavam peças de aço nos mamilos, conhecidas por berloques.
Ao verificar tudo isto e acreditando que estava entre povos sem cultura, um pouco só mais adiantados que os homens das cavernas, não deixei de recordar lá, o porco da minha terra com anéis no focinho e no nariz, servindo de travão à destruição das hortas.
E assim regressei daquela estóica e estouvada África, Moçambique, censurando os mamilos furados dos homens, os lábios e as orelhas destruídas daquelas mulheres, pois nunca compreendi o porquê de tais usos e costumes, devido ao sofrimento que se imagina terem de passar.
Ora, a partir de 1975 para cá, em Portugal, talvez muito antes em toda a Europa e noutras partes do mundo, que observamos? As nossas mulheres e homens, sobretudo jovens, usam nas orelhas e nos mamilos anéis, piercings nos lábios, na língua, no nariz, nas sobrancelhas, no umbigo e segundo se consta mais abaixo um pouco, tal como se usava nos porcos para não destruírem as hortas.
Pelo que se regista, não eram os povos de África os atrasados. Portugal e outros países, sobretudo na Europa, não fizeram mais do que copiar os negros africanos da floresta ou de entre o capim.
Berloquistas, piercingados ou tatuados poderão dizer que nada tenho a apontar contra os furos que fazem em seus corpos. Talvez seja assim, talvez não. Mas aceito ser contestado na minha forma de ver e de interpretar os ecos do nosso mundo.
Todavia, parece-me que a liberdade de cada um fazer o que quer com o seu corpo, ainda não está legislada. “E Deus se quisesse que o homem ou a mulher tivessem mais furos do que os que tem, lhos teria dado. Os furos existentes chegam, e cada furo sabe a missão que tem” - disse o filósofo.
O uso de piercings, tatuagens ou berloques, são altamente perigosos, uma vez que a sua aplicação pode terminar em existência de sida, de hepatites, infecções virais e bacterianas, alergias, abcessos cerebrais e mortes como já aconteceram/acontecem e nada se diz ou se escreve sobre tais excentricidades contra o corpo humano.
E no caso das tatuagens – embora se saiba que esses “serviços” actualmente estão menos perigosos - ainda há tatuadores sem escrúpulos, que vão ao ponto de utilizarem tinta de escrever ou tintas da construção civil, o que é inaceitável.
Importa por isso estar-se atento e, se são os tolos que inventam as modas, que não sejam os loucos a segui-las de perto.