Que pode a filosofia dizer quando uma mãe procura um filho entre os escombros? Caros leitores, escrevo com a Venezuela no pensamento e com a sensação que nos atinge quando uma tragédia acontece longe, mas nos entra em casa pela imagem de uma mãe a chorar, de um pai a cavar com as mãos, de uma criança coberta de pó e de uma família que, numa só noite, ficou sem casa e sem futuro.
Há algum tempo escrevi sobre a tragédia do Elevador da Glória, em Lisboa. Agora, a dor mudou de geografia, mas não de natureza, porque uma tragédia é uma ferida que interrompe a vida e nos lembra que aquilo que julgávamos seguro podia desaparecer num instante.
Os gregos pensaram a tragédia como o confronto entre o ser humano e forças que o ultrapassam. Aristóteles dizia que ela desperta compaixão e temor, e é isso que sentimos perante a Venezuela, compaixão porque aquelas pessoas podiam ser nossos familiares, temor porque a natureza não pede licença. A natureza pode ser bela quando nos oferece o mar, as montanhas e a serenidade dos dias, mas não tem intenção moral quando treme ou destrói. Cabe-nos, com ciência, saber prevenir, diminuir os danos e proteger os mais frágeis.
E se me perguntarem o que pode a filosofia dizer a uma mãe que perdeu um filho entre os escombros, talvez eu responda que deve começar por não explicar depressa aquilo que nenhuma explicação consola. Lembro o mito de Deméter e Perséfone, em que uma mãe perde a filha para o mundo dos mortos e a terra deixa de florescer. Quando uma mãe perde um filho, perde uma parte do seu amanhã. A filosofia não o devolve, mas lembra-nos que aquela dor exige respeito, silêncio e presença.
Caros leitores, é aqui que a esperança se torna necessária, porque, quando tudo cai, precisamos de acreditar que ainda é possível reconstruir. Os estoicos foram quase negacionistas da esperança, ao ensinarem-nos a desconfiar do amanhã e a viver apenas no que depende de nós. Há sabedoria nisso, mas perante um povo já ferido por outras crises e agora mais fragilizado por este terramoto, não aceito que o amanhã seja indiferente. Estou com empatia e com as vítimas, porque a esperança é sentir que uma casa e uma escola pode levantar-se e uma comunidade pode reencontrar forças.
Não podemos esquecer essas vidas que surgem dos escombros quando quase ninguém imaginava ouvir uma voz ou uma respiração. Cada vida resgatada não apaga a tragédia, mas lembra-nos que o esforço nunca é inútil enquanto houver uma possibilidade de salvar alguém. É por esse amanhã que as equipas de resgate continuam onde a morte parecia ter dito a última palavra.
Deixo uma palavra de apreço às equipas de resgate da Venezuela e dos países que se voluntariaram para ajudar. Num tempo de fronteiras e interesses, há algo de humano em ver pessoas atravessarem distâncias para salvar desconhecidos. Não perguntam que língua fala, que religião tem ou que vida levou. Perguntam apenas se ainda respira.
Caros leitores, há dores que não se explicam. Que se diz a pais que perderam filhos, a filhos que perderam pais, a avós que perderam netos? Talvez se diga pouco, porque há dores que não precisam de explicações, precisam de presença. Perante certas perdas, a empatia é presença, ajuda, silêncio e compromisso.
No meio da ruína, quero lembrar Camus, quando escreveu que “há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”. Vejo isso nas mãos que retiram pedras, nas equipas que procuram sobreviventes e nos desconhecidos que transformam compaixão em trabalho. A tragédia não devolve os mortos, mas pode impedir que os vivos fiquem abandonados.
E é com esta dor ainda presente que deixo aos leitores uma reflexão final.
– Se todos estamos sujeitos à mesma fragilidade, que aprendemos com a dor que atingiu a Venezuela?