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IA: Os Engenheiros do Nada

Imagine que contrata alguém para lhe pintar a casa e, a meio, deixa essa pessoa avançar também com a planta, a canalização, a estrutura e as partes elétricas. Provavelmente ainda vai correr bem na primeira parede, na segunda... O problema vai aparecer depois, quando já não há volta a dar sem deitar tudo abaixo e recomeçar.

É mais ou menos isto que muitos de nós andamos a fazer com a Inteligência Artificial. Começamos por pedir uma ajudinha simples, gostamos do resultado e, sem darmos conta, passamos a delegar decisões para as quais não temos preparação. A IA aceita tudo. Nunca diz que não percebe do assunto, nunca hesita, nunca levanta a mão para avisar que aquele caminho é arriscado. E é exatamente aí que mora o perigo, pois, ao não sermos especialistas em todas as áreas, nem sabemos o que pedir.

O fascínio de saber tudo sobre nada

Hoje qualquer um de nós, em segundos, gera um contrato, um diagnóstico, um plano financeiro ou um pedaço de código. Parece magia. Mas gerar não é o mesmo que dominar. Uma coisa é a IA produzir o texto, outra é eu ter conhecimento para perceber se aquilo está certo, se faz sentido no meu caso concreto, se não tem um erro escondido que só um especialista apanharia.

Quando nos aventuramos em terreno que não conhecemos, perdemos a capacidade de validar, de conhecer o ecossistema específico dessa área, a forma de trabalhar e até a cultura da profissão. E sem validação, estamos apenas a confiar. A confiar numa ferramenta que, por natureza, trabalha com probabilidades e não com certezas. É como pedir indicações a alguém muito seguro de si que, afinal, também nunca foi ao sítio para onde nos manda. Basta que uma solução tenha sido a mais usada para ser proposta, quando podem estar a ser descartadas soluções muito melhores por simples desconhecimento ou inexistência nos modelos e fontes de informação usadas. Por exemplo, soluções regionais, nacionais ou sectoriais específicas.

A Gartner, consultora de referência mundial, deixou um aviso que merece atenção. Prevê que, até ao final deste ano, metade das organizações do mundo vai voltar a exigir provas de competência feitas sem IA, precisamente porque o uso excessivo está a atrofiar o nosso pensamento crítico. Usamos tanto a muleta que desaprendemos a andar.

Mas a conta chega sempre no final

Há ainda um custo de que pouco se fala. Além dos riscos de usar soluções enviesadas, quando delegamos de mais e mal, o trabalho não desaparece, apenas muda de sítio e cresce. O que parecia poupado à entrada paga-se à saída, em correções, replaneamento e retrabalho, sem dúvida alguma.

A mesma Gartner estima que mais de 40% dos projetos de agentes de IA serão cancelados até 2027, por custos descontrolados, valor pouco claro ou falta de controlo dos riscos. E um estudo do MIT mostrou que 95% dos projetos-piloto de IA generativa nas empresas não tiveram impacto real no negócio. Não foi a tecnologia que falhou. Falhou a forma como a usámos, muitas vezes a querer aplicá-la a tudo, sem critério nem preparação.

O retrabalho tem este lado traiçoeiro. Não aparece na fatura do primeiro dia. Aparece um mês depois, quando alguém com conhecimento tem de desmontar o que foi feito à pressa e reconstruir com método. Quanto mais cedo se aceita o "mais ou menos", mais cara fica a correção lá à frente. E refazer custa sempre mais do que ter feito bem à primeira.

Então não usamos? Usamos, com governo!

Nada disto é um argumento contra o uso da IA, muito pelo contrário. É um acelerador gigantesco, e quem não a usar fica para trás. O ponto de vista é outro. Delegar não é abdicar. Tal como na liderança de equipas, dar autonomia exige definir limites, definir e validar resultados e manter sempre alguém competente ao leme.

Hoje, mais do que nunca, a forma como delegamos é tudo. Por exemplo, que informação partilhamos ou o detalhe do que pretendemos.

A regra é simples. Usamos IA com força naquilo que dominamos, porque aí conseguimos validar e potenciar. Mas temos de ter mão firme quando entramos em terreno onde não somos especialistas, pedindo referências, ouvindo quem sabe e desconfiando das respostas demasiado perfeitas para serem verdade.

Porque no fim, a máquina pode pintar a parede a uma velocidade impressionante. Mas quem responde pela casa, e por quem lá mora, continuamos a ser nós.

Guilherme Teixeira

Guilherme Teixeira

1 julho 2026