«… Amai-vos intensamente uns aos outros, do fundo do coração, como quem nasceu de novo, não de uma semente corruptível, mas de um germe incorruptível, a saber, por meio da Palavra de Deus, viva e perene». (1Ped 1, 22-23)
O que realmente caracteriza a palavra de Deus é ela tornar-se uma interpelação viva, inclusive vital. Para entendermos isto, mesmo a nível humano, podemos distinguir entre três termos técnicos: ‘língua’, ‘discurso’ e ‘palavra’. A língua inclui o vocabulário e a gramática; o discurso é o uso dessa língua numa intervenção oral, num escrito ou num pensamento – claro ou apenas esboçado-, e a ‘palavra’ é a ins-tância (o lugar em que se situa) o sujeito no discurso.
A palavra diferencia-se do discurso, porque a palavra designa «o lugar de onde, por detrás do discurso, isto é, no tom de voz, nas insinuações, nas expressões faciais ou corporais que o acompanham, o «sujeito» (a pessoa) se dirige, por meio de um enunciado (discurso), a outro sujeito». (Chauvet, p. 66) Sem dúvida que o conteúdo do discurso é importante e deve ter sentido. Mas, por cima desse sentido, há alguém que se dirige a alguém. E é aí onde entra em jogo a palavra. O discurso mais banal, conforme o tom com que se dirige ao outro é amistoso ou frio, pode enchê-lo de alegria ou tristeza. A palavra situa-se naquilo que não se diz. Uma pessoa dirige-se a outra e no modo como o faz, transmite-lhe o seu apreço, a sua confiança, a sua amizade, a sua indiferença, o seu desprezo, a sua zanga ou até o seu ódio.
A palavra é o motor invisível de todo o discurso. Isto aplica-se também à Palavra de Deus. «Esta realiza-se plenamente quando o discurso escutado através dos textos ressoa em nós como uma Palavra que nos interpela e nos leva a configurar a nossa vida em função do que ouvimos. A Palavra converte-se então em ‘acontecimento’ para nós. Uma passagem do Antigo ou do Novo Testamento alcança a sua natureza de palavra de Deus quando o ouvinte ou o leitor a recebe pessoalmente como Palavra que o alegra, porque é Boa Nova que o interpela como chamada à conversão, que o desafia e obriga a posicionar-se.
A palavra hebreia «Dabar» significa palavra e também ato, acontecimento. Nesse sentido, é o próprio acontecimento que se reconhece como palavra de Deus., A Igreja reconheceu em Jesus a palavra de Deus. Isto torna-se patente quando, no final da proclamação do Evangelho, o sacerdote ou diácono o levanta e beija, dizendo: ‘Palavra da Salvação’. A resposta dos fiéis não é: Glória a ti, sublime livro, mas «Glória a Ti, Senhor!». O livro merece ser elevado para se venerar como ‘sacramento’ da palavra de Deus. No caso do Evangeliário, é levado desde o altar em procissão, quase da mesma forma que o Santíssimo Sacramento. Nas missas solenes, é incensado e, no final da proclamação, é beijado, num gesto de quase comunhão que mostra como, efetivamente, é como ‘pão da vida’ tomado da mesa da palavra de Deus (Dei Verbum, 21) e oferecido aos fiéis para que se alimentem dele. Tudo isto porque o livro é, com efeito, «sacramento da palavra de Deus». Mas, ao ser apenas sacramento dessa Palavra, não é a ele que se glorifica, mas ao Senhor que é, em plenitude, Verbo ou palavra de Deus. Há, pois, uma diferença entre livro e Palavra. E é por isso que o Cristianismo não é uma religião do Livro, mas da Palavra.
A Bíblia não é um conjunto de sentenças, como o Corão, mas um livro que conta uma história: a história complexa, acidentada e por vezes escandalosa, na qual Deus estabelece um pacto com os homens através do povo de Israel, para se encontrar plenamente com eles por meio do seu filho Jesus. Trata-se de uma história feita de repetições, dúvidas, retrocessos, correções e evoluções do pensamento em função das mudanças culturais, sociais, económicas e políticas das épocas vividas. Em certo sentido, a Bíblia corrige-se a si mesma. O texto canónico que utilizamos encontra a sua coerência e chave de interpretação na morte e ressurreição de Jesus. Por isso, a interpretação é parte constitutiva da Bíblia. O famoso biblista Paul Beauchamp afirma que na Bíblia «está escrito que se vai escrever outra coisa». (Chauvet, p. 71)
Para cumprir a sua finalidade como palavra de Deus, o texto bíblico necessita de uma interpretação. «Não há palavra de Deus sem passar pelo que está escrito; mas, entre o escrito e a Palavra há sempre uma distância, uma distância que requer uma interpretação. Na liturgia, é essa precisamente a função da homilia: propor essa interpretação que dará vida ao escrito como Palavra. A Bíblia necessita de uma interpretação constante, para ser como deve ser ‘inculturável’ em todas épocas e circunstâncias. (Chauvet, pp. 72-73)