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Crítica e escárnio

A vida de desportista é sempre muito volátil. Porém, há jogadores que pelo seu estatuto são mais alvos de críticas ou de escrutínio. Bastou um empate, um jogo menos conseguido, no Mundial de Portugal, para que o habitual coro de críticos regressasse com um discurso já demasiado repetido: está acabado, já não tem lugar na seleção, tornou-se um problema para a equipa. Mas será que a análise ao momento atual do capitão português está realmente a ser feita com justiça? Só o CR7 é que esteve mal? A troca de bola no meio campo, para o lado, para trás, sem qualquer profundidade, favorece um jogador como CR7? Eventualmente, não tem que ter o jogo preparado para ele, tem é que existir coerência nas análises.

Estamos a falar de um jogador com 41 anos que continua a competir ao mais alto nível e está a disputar um Mundial, algo que por si só já representa um feito extraordinário no futebol. Que sempre deu tudo por Portugal. É, em muitas matérias, um exemplo. Espera-se dele o mesmo estilo de jogo que tinha. Espera-se que o coloquem como “salvador da pátria”, quando a análise que tem que ser feita é à prestação da equipa. Cada jogo transforma-se num julgamento absoluto sobre a sua carreira. Se marca, cumpre a obrigação. Se falha, instala-se imediatamente a narrativa do declínio.

Poucos atletas no futebol mundial enfrentaram uma exigência tão constante durante tanto tempo. Importa recordar algo essencial: CR7 não representa apenas rendimento dentro das quatro linhas. A sua presença traz liderança, experiência competitiva e uma mentalidade vencedora construída ao longo de mais de vinte anos de elite absoluta. Foi ele quem ajudou a transformar Portugal numa seleção respeitada internacionalmente. É, sem margem para dúvidas, o jogador mais marcante da história do futebol português.

Na minha opinião o ponto chave negativo de CR7, não foi o rendimento, foi ter saído de campo sem o seu grupo. Sendo capitão, deveria dar a cara, por todos e com todos. O resto, faz o seu trabalho como qualquer outro. O selecionador chama-o ou não para entrar em campo. Não rende, deverá sair como os outros. 

Criticar faz parte do jogo. Sempre fez. Mas existe uma linha entre análise desportiva e falta de sentido patriótico. Julgar CR7, desta forma, é esquecer tudo aquilo que ele é e continua a representar para Portugal. Independentemente do que acontecer neste Mundial, uma verdade permanece inalterável: CR7 já fez mais pelo futebol português do que qualquer outro jogador da nossa história. E talvez esteja na altura de percebermos que há atletas que merecem respeito, antes de serem levianamente descartados.

Carlos Dias

Carlos Dias

22 junho 2026