Há pessoas que se medem pelos cargos que ocupam. E há outras, raras, que se medem pela marca que deixam. Miguel Silvestre pertencia, sem qualquer dúvida, a esta última categoria.
Licenciado em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Coimbra, construiu um percurso sólido e notável no setor farmacêutico português. Cofundador da Bluepharma, líder de várias organizações de referência, entre as quais o MONAF- Montepio Nacional das Farmácias e a plural+udifar enquanto Presidente do Conselho de Administração, Miguel Silvestre foi muito mais do que um gestor. Foi um construtor.
Construiu projetos. Construiu pontes. Construiu um modo de estar.
Acreditava profundamente na farmácia comunitária independente, próxima das pessoas, enraizada nas comunidades, comprometida com o bem comum.
E acreditava, com igual convicção, no papel das cooperativas como instrumento de afirmação desse modelo: profissional, solidário e sustentável.
Tinha visão. Mas, sobretudo, tinha a capacidade, mais rara, de a concretizar.
Era firme sem ser duro. Exigente sem deixar de ser justo. Discreto, quase sempre. Determinado, sempre.
Tinha ideias claras. E sabia dizer não, quando era necessário. Sem ruído. Sem hesitação. Com aquele equilíbrio difícil entre a serenidade e a coragem que, nos momentos certos, faz toda a diferença.
Miguel Silvestre não liderava para ser reconhecido. Liderava porque acreditava.
E acreditava nas pessoas. Não como discurso. Como prática. Como princípio. Como ponto de partida. Para ele, por detrás de cada resultado havia uma história. E por detrás de cada número, uma pessoa. Foi essa convicção que moldou a cultura das empresas e entidades por onde passou.
Porque Miguel Silvestre não se limitou a orientar organizações, ajudou a transformá-las. Tornou-as mais sólidas, mais conscientes, mais preparadas. Mais humanas.
Os dias vão passando. E a saudade fica! Fica nas reuniões onde a sua voz já não ecoa.
Nas decisões onde já não teremos o seu olhar exigente, mas profundamente justo.
E, acima de tudo, nas pessoas que com ele trabalharam.
Porque é nelas, em todos que com ele privaram, que o seu legado verdadeiramente vive. Na forma como exigimos mais. Na forma como cuidamos melhor. Na forma como continuamos, juntos.
Multiplicaram-se, nos últimos dias, os gestos de homenagem. As palavras vindas de dentro e de fora. As presenças, de perto e de longe. Todas diferentes. Mas todas com um traço comum: o reconhecimento de uma marca humana fora do comum.
E talvez seja essa a medida mais justa de uma vida. Aquilo que permanece nos outros.
Miguel Silvestre não foi apenas uma referência no setor. Foi uma referência para as pessoas. Um líder que ensinou sem impor. Que exigiu sem afastar. Que valorizou sem fazer alarde. Um cavalheiro. No sentido mais inteiro da palavra.
E é por isso que, mesmo na ausência, permanece. Naquilo que construiu. Naquilo que deixou. Naquilo que somos. Porque há ausências que não se preenchem. Mas há exemplos que não se apagam.
E o de Miguel Silvestre continuará – firme, discreto, inspirador – a acompanhar o caminho de todos aqueles que tiveram o privilégio de com ele se cruzar.